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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

JESUS E AS NOSSAS DOENÇAS

Há três domingos que as leituras do Evangelho vem sendo uma sequência de versículos de Marcos capítulo 1.  No Domingo passado vemos Jesus desmascarando e expulsando aquele que é a origem do mal no mundo, aquele que é perverso e perversor: o demônio.
Assim como uma dona de casa, quando vai fazer uma boa faxina, não tira somente as aranhas, mas também as teias que essas aranhas fizeram, Jesus é Aquele que vem reparar a glória de Seu Pai, ultrajada pelo pecado de Adão e, para isso, expulsa o demónio, mas também tira as teias do pecado e suas consequências.
São Beda, comentando essa passagem da cura da sogra de Pedro diz: “Primeiro deveria o Senhor tapar a boca da serpente, para que não espalhasse mais veneno. Depois curou a mulher que foi seduzida antes da concupiscência carnal. Por isso disse: “Jesus saiu da sinagoga e logo foi à casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama com febre, e logo contaram a Jesus”.  O Santos Padres viam na febre da sogra de Pedro, um símbolo da concupiscência carnal que ficou no ser humano, fruto do pecado original. Jesus, tocando a sogra de Pedro, de novo a equilibra interiormente e a capacita para o serviço no amor.
O pecado original teve como uma de suas consequências, os males físicos. De dois modos Jesus trata esses males: O primeiro é curando-os na Sua Infinita Misericórdia; o segundo é fazendo com que o sofrimento dos seus fiéis contribua para o bem espiritual deles ou de outros, como diz São Paulo quando afirma que tudo concorre para o bem dos que amam a Deus. (Cf. Rom 8,28)
A Igreja sempre percebeu isso, e viu, no cuidado com os enfermos, uma de suas mais importantes obrigações, aliviando-os de modo natural pelos cuidados, ou sobrenatural, pelos sacramentos e preces. Assim, vemos toda a tradição de médicos que se santificaram no exercício de sua profissão como São Lucas Evangelista, São Cosme e São Damião, Santa Giana Bereta Molla entre muitos outros; fundadores de ordens dedicadas ao cuidado dos doentes como São João de Deus, que fundou hospitais psiquiátricos, São Camilo de Lélis, fundador dos padres e irmãos Camilianos e, atualmente, muitos fundadores de casas para a recuperação de viciados em drogas.  Tal era, em São Camilo, a consciência de que o Cristo estava no doente e que deveria assisti-lo aí, que chegou a dizer que se chegasse, porventura, o dia em que não tivermos mais nenhum doente para nele servirmos o Cristo, teríamos de ir ao cemitério e ressuscitar algum dos mortos para isso.
 Verdadeiramente, como vemos no Evangelho de hoje, a enfermidade pode ser um momento muito privilegiado para o encontro com Cristo que quer nos curar no corpo e na alma, sarando em nós, o pecado e suas consequências.
O salmo de hoje é claro: “O Senhor Deus é o amparo dos humildes, mas dobra até o chão os que são ímpios” (Salmo 146). Ora, em que momento nos tornamos mais conscientes de nossa pequenez do que na enfermidade?  Por isso a Igreja sempre esteve presente nos hospitais, asilos para idosos, tantas casas de recuperação de drogados, e mesmo, fundando muitos deles com pessoas vocacionadas para isso. É uma grande obrigação dos sacerdotes, a visita e a ministração dos sacramentos aos doentes. Para isso existem, também os ministros extraordinários da comunhão Eucarística, a pastoral da saúde...
Tendo em vista tudo isso, vemos como a Igreja sempre teve apresso pela profissão médica, vendo nela um dos cumprimentos do mandato do Salvador: “Estive doente e fostes me visitar”.
Não obstante isso, não podemos deixar, com muito pesar, de nos referir também, aqui, a certos abusos no exercício da medicina que vemos nos dias de hoje. A enfermidade , que colabora para o crescimento da humildade do ser humanos e a reaproximação de Deus, pode, infelizmente, contribuir também para o endurecimento do coração e a revolta contra o Criador e os seus desígnios. Como?  
Quando a medicina é usada não para preservar e restaurar a saúde, mas para manipular a vida. Lembramos as eutanásias, lembramos o congelamento de embriões humanos e o descarte dos mesmos nas fecundações em vitro; lembramos os métodos anticoncepcionais artificiais que geram abortos; lembramos as esterilizações em massa que se praticam nos dias de hoje. Estas últimas levam muitas pessoas, não a equilibrar as suas paixões e a canalizá-las ao reto uso da sexualidade, mas para tornar o uso do sexo algo “barato”, que acaba por levar à desordem moral, e, consequente, ao enfraquecimento das instituição familiar.
Estamos perto do carnaval. Quantas pessoas, nesses dias, por causa do avanço da medicina, vão tratar os seus corpos com depravação, achando que não pegarão nenhuma doença, ou que não engravidarão. Mesmo que isso não aconteça, o que de fato acontece, pois esses métodos são falhos, como ficarão as suas almas? Certamente mais entregues àquele antigo inimigo do qual Jesus veio nos libertar: o demônio.
Que Nosso Senhor nos conceda santos médicos, santos sacerdotes, santos agentes de pastoral da saúde, bons vizinhos dos enfermos, para que estes recuperem a saúde não só do corpo, que um dia perecerá, mas também da alma, pela qual Jesus se ofereceu na Cruz.
Dentro de instantes, o mesmo Jesus que curou os doentes estará conosco na Eucaristia, para tocar também misericordiosamente o nosso corpo, pois também ele está destinado à felicidade eterna juntamente com a nossa alma. Que Nosso Senhor aumente a nossa fé e que possamos receber a Eucaristia sempre com maior fruto.

Para partilhar: O que posso fazer a mais por Jesus presente em cada enfermo?

Pe. Marcelo

domingo, 28 de janeiro de 2018

A PALAVRA QUE CONSOLA E ILUMINA AS TREVAS

Tanto a segunda leitura, como o Evangelho deste domingo são sequenciados com relação ao domingo passado; este, do Evangelho de São Marcos e aquela, da primeira Carta aos Coríntios. Assim, vale a pena recordar a última frase do Apóstolo Paulo da segunda leitura do domingo passado. São Paulo dizia: “A figura deste mundo passa.”
Esta mesma ideia perpassa a leitura deste dia. Quem quiser ter a clareza do que está no coração de Deus sobre o chamado a constituir uma família ou ser um celibatário por amor ao Senhor e ao seu Reino, deve ler e meditar o capítulo sete da Primeira Carta aos Coríntios.
Seja o matrimônio, seja a vida consagrada celibatária, para São Paulo, derivam de um mesmo chamado: a vocação celeste. Quem abraça o matrimônio deveria fazê-lo não porque lhe é mais cômodo, mas em vista de um carisma. São Paulo vai dizer claramente que preferiria que todos fossem como ele(celibatário), mas que cada um tem o seu “dom” ou “carisma” (Cf. 1 Cor 7, 7).
Quem quer, porém, ouvir a voz de Deus em sua vocação??? Moisés, na primeira leitura, diz claramente que o povo não queria ouvir a voz do Senhor a lhe falar diretamente, de forma que Deus promete um Profeta que falará de forma humana ao povo. Este profeta é o próprio Cristo.
O Cristo é a própria Palavra de Deus que, ouvida em Cafarnaum, que significa “local do consolo”, expulsa o espírito maligno.
Esse espírito maligno estava em um lugar meio estranho... num lugar onde não era de se esperar que ele estivesse: a sinagoga. Deveria ser um local de tranquilidade, de escuta da Palavra e da vontade de Deus. No entanto, baseado em outros textos, podemos dizer que um espírito mundano pairava no senso religioso do povo de Israel e até mesmo nos próprios Apóstolos antes de Pentecostes. Quando Jesus multiplicou os pães, o povo o queria fazer rei. Quando começou a falar do Pão Novo que dava a vida eterna, Nosso Senhor perdeu discípulos.
Mesmo depois que Nosso Senhor Morreu na Cruz e ressuscitou, os próprios Apóstolos perguntaram ao Senhor: “É agora que ides restaurar o Reino de Israel?”  Pão material, reino humano...
Não é o que constatamos hoje, infelizmente, em muitos cristãos? Buscam a bênção de Deus e não o Deus da bênção... Paga-se o dízimo porque deseja-se uma retribuição material imediata.  Faz-se novena para conseguir um namorado. Conseguido o namorado, não tenho mais tempo para o Senhor e para a Eucaristia. Faz-se novena para passar na faculdade. Entrando na faculdade, em vez de inflamar com o fogo da fé e do amor de Deus o ambiente universitário, se deixa a fé. Faz-se um ECC (Encontro de casais com Cristo) para restaurar a harmonia conjugal abalada. Conseguido isso, não se vai à Santa Missa nem se faz apostolado...
Uma religião intramundana e utilitarista...
Não é essa que São Paulo nos propõe. O Cristo, no “local da consolação” que é o que significa o nome “Cafarnaum”, quer ter um encontro pessoal conosco, pois foi também lá, que ele fez o seu discurso do Pão da vida. Foi lá, na cidade de Pedro, na mesma sinagoga em que ele expulsou esse demônio, que ele disse: “Eu sou o Pão vivo descido do Céu, quem comer deste pão viverá eternamente”. Que o Pão Vivo que é Cristo, que receberemos em instantes, nos leve  a não ter medo de escutar a voz de Deus a nosso respeito, como o Povo de Israel, e seja qual for o serviço ou o local em que a Divina Providência nos colocar, estejamos lá para buscar o “único necessário”: o Reino que não é daqui, mas que, a partir do coração reconciliado e inabitado pela Trindade, já começa aqui na prática do amor ao próximo.
Para partilhar: Nós buscamos a “bênção” de Deus ou o Deus da bênção. Qual a diferença?
Pe. Marcelo

sábado, 13 de janeiro de 2018

Ser de Deus pelo santo Batismo

Na última segunda-feira, celebramos, com alegria, a Festa do Baptismo do Senhor. No ano do laicato que estamos vivendo, quão importante é renovarmos  a graça deste Sacramento. Quando foi batizado, Nosso Senhor consagrou as águas para que possam servir ao Baptismo de todos os fiéis. Por causa desta graça, São Paulo nos diz na segunda leitura: “Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, porque o recebestes de Deus, e que vós já não vos pertenceis?” (1 Cor 6,19) Nós pertencemos a Jesus pelo Baptismo. Como diz São Paulo: “Fostes comprados por um alto preço! Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo.” (1Cor 6,20)
Nós não somos só animais. Nem mesmo, apenas, animais racionais. Fomos elevados por Cristo. Poderíamos fazer uma escadinha dos seres existentes em dignidade: O mais baixo seriam os demônios, depois dos réprobos, que ofendem a Deus sempre... depois os minerais, os vegetais, os animais irracionais, os seres humanos não batizados, os seres humanos batizados, as almas do purgatório, os santos no Céu, os anjos bons, por fim, como o ser mais elevado e excelso, abaixo Santíssima Trindade , a  Santíssima Virgem Maria.  São Paulo, na segunda leitura, exorta os Coríntios, que já tinham subido elevados por Cristo no Santo Batismo, a viverem não como os pagãos não batizados, mas de acordo com a dignidade de filhos de Deus. Ele chama de fornicação, à união de dois batizados sem o sacramento do Matrimônio.
 Para alguns, esta distinção não parece tão clara. Nesses dias, depois de fazer, cinco santificações matrimoniais de casais que viviam juntos, no dia seguinte fui batizar uma menina de uns dois anos de idade. Que dificuldade! A Jarra com a água benta parecia que aterrorizava aquela menina que gritava e se contorcia para todos os lados.. Depois do Batismo, que anjinho!!! Super tranquila...
 Muitos casais parece que padecem de algo semelhante . Parece que a aliança conjugal é um terror e preferem ficar amigados. Ainda não perceberam que a família é, antes de tudo, um vínculo espiritual, e só depois um vínculo carnal.  É um vínculo espiritual, não só pela presença da Graça do Espírito Santo, mas também pela virtude que se conquista pelo dom sincero de si mesmo aos outros. Não sei se já fostes em algum funeral onde há uma pessoa desesperada que grita: “E agora, o que será de mim sem você... “ Dá vontade de rir para não chorar. Aquela pessoa não está minimamente preocupada com a alma da pessoa que acabou de partir, se ela está no purgatório, se precisa de oração, ... pensa só em si e no que aquela pessoa poderia fazer por ela...  Não deu o passo do dom sincero de si mesmo que é necessário em toda vocação. Não cresceu no dom de si. Permaneceu egoísta.
Como superar este impasse e esta indecisão diante da própria vocação? A solução e´ assumi-la como ela é de verdade: um chamado de Deus. Se a vocação matrimonial é um chamado a “morar junto”, daí a palavra “casamento”, na mesma casa, também a vocação consagrada é um chamado a morar, já agora, com o Senhor. Foi assim com Samuel, na primeira leitura, foi assim com Pedro e André no Evangelho: “Mestre, onde moras? Vinde e vede”.
Se todos as nossas vocações começassem na oração, seria muito mais fácil a decisão. Me lembro o testemunho de minha mãe que, embora respeitando e estimando a vocação consagrada, sentia que não era a dela. Assim, rezava sempre três vezes a Ave-Maria, antes de dormir, pedindo duas graças por intercessão de Nossa Senhora: a que fossem afastado dela os rapazes que só queriam se aproveitar, e que o Senhor reservasse uma pessoa boa para que ela se casasse. Aconteceu que meu pai ficou amigo de um de meus tios, pois estudava contabilidade com ele e calhou de o convidar para passar as férias no Espírito Santo. Minha mãe, que também trabalhava no Rio, naquela época, também tirou férias no mesmo mês. Assim, ela achou o marido dela na casa de sua mãe... Não precisou ir a “forró” nenhum para isso...
Já que aquela união foi santificada por um sacramento, o quarto de um casal unido em Matrimônio passa a ser um “santuário da Vida” como se expressou o Papa João Paulo II referindo-se à sacralidade da Família.
Foi, curiosamente, também no leito conjugal de meus pais (pois, na época, era o único cômodo fora o banheiro que tinha porta lá em casa)   que também o Senhor quis comunicar-me, de forma mais clara,  o meu chamado vocacional. Recordo-me da circunstância: Estava na época cursando a escola secundária da Aeronáutica ( EPCAR), e já me tinha questionado algumas vezes sobre a vocação sacerdotal, mesmo já tendo namorado. Certo dia, quando no quarto de meus pais, procurava um local mais tranquilo e isolado para orar com a porta fechada, escutei no meu interior claramente a seguinte passagem da Bíblia: Isaias 54. Quando abri a Bíblia, até pelo local onde estava, a cama de casal de meus pais, o convite não poderia ser mais claro e sedutor. Trazendo  para o masculino seria: “os filhos do não casado serão mais numerosos do que a do casado”. (Cf Is 54,1) Ou seja, na cama de casal de meus pais o Senhor me fazia um convite para uma fecundidade maior: a fecundidade de gerar, com a Sua Graça e a ordenação sacerdotal, filhos para o Céu, para a vida eterna, que deveriam ser mais numerosos que os filhos da carne. Meus pais não ficaram sem netos. Tiveram netos físicos pelos meus irmãos, mas tiveram, e se Deus quiser ainda terão muitíssimos, netos espirituais pelo meu ministério. Tenho a certeza que meu pai que o Senhor chamou a si há seis anos atrás, se alegra muito, no Céu, com o meu chamado ao sacerdócio; ou pelo menos tem misericórdia de mim e me ajuda com sua intercessão.
Seja qual for o nosso chamado: à vida matrimonial, celibatária, consagrada ou não, ao Sacerdócio, o que importa, mesmo, é ser do Senhor; é viver a vocação como um chamado ao Amor.  O importante, seja qual for a nossa vocação é ser de Deus, radicalmente de Deus.
 Cada um, especialmente os jovens, devem, buscando a sua vocação, dizer como no Salmo de hoje: “Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade” (Salmo 39)
 Para São Vicente Pallotti, a graça da vocação de cada um era algo importantíssimo e deveria ser valorizado e cultivado. Como Maria Santíssima foi a pessoa humana que melhor correspondeu ao chamado do Senhor, São Vicente Pallotti escreveu em nome de Nossa Senhora no seu livro para o Mês de Maio: “Tendes duvida da vossa vocação…? Não vos perturbeis, ó meus filhos! Chegou o momento em que não tereis mais coragem de resistir à voz de Deus, Pai das misericórdias. Dai-me o coração rebelde, desprendei-o de todo o laço terreno que vos levou até o presente, a resistir à graça e vos impediu de vos entregardes totalmente a Deus… Oferecei ao Eterno Pai o Sangue Divino do Seu Filho… Recorrei a mim e eu, como Mãe de Misericórdia, tratarei da vossa causa e sereis consolados.” (OO CC XIII, 467-468)

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Em que ocasião da vida experimentaste de forma mais forte o que o Apóstolo Paulo escreveu: “Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, porque o recebestes de Deus, e que vós já não vos pertenceis?”  Algum movimento da Igreja ajudou-o nesta descoberta?

Pe. Marcelo Nespoli SAC 

sábado, 6 de janeiro de 2018

EPIFANIA DO SENHOR

Em alguns lugares ou círculos de amizade, pensa-se que a fé cristã é coisa de mentes pobres e ingênuas; de pessoas que, por não encontrar nas próprias forças caminho de aperfeiçoamento, o buscam no sobrenatural. Os Reis Magos do Evangelho são uma resposta para essas mentes soberbas.
Os pastores foram até à gruta de Belém por conta de uma revelação extraordinária dos anjos. Já os Reis Magos chegaram à gruta de Belém através da Revelação do Antigo Testamento (Fé) e da observação dos fenômenos naturais, no caso a estrela (Razão). Fé e razão: as duas asas do espírito humano de que tanto fala o Papa São João Paulo II na sua encíclica “Fides et Ratio”.
Assim como eles, muitos outros souberam voar alto com essas duas asas dadas por Deus ao ser humano. Vejamos alguns deles:
Conta-se na Biografia do pesquisador Francês Pasteur:
"Um jovem universitário entrara num compartimento do trem e sentou-se ao lado dum homem de idade. Entre as mãos deste deslizavam as contas dum grande rosário e o seu rosto refletia a devoção intensa com que rezava. Intrigado, o jovem exclamou: O senhor parece que ainda acredita nessas velharias!?. . .
 Sim. E tu, não?
O estudante soltou uma estrepitosa gargalhada e respondeu:
 Eu? Se o senhor quiser seguir o meu conselho, atire esse terço pela janela e aprenda o que diz a nova ciência.
A nova ciência?... Fez o velho com espanto. Não consigo compreender essa ciência. Talvez tu me pudesses ajudar.
 Dê-me a sua direção, acrescentou o rapaz cheio de importância, e eu lhe enviarei alguns livros que o podem ilustrar.
O homem tirou do bolso um cartão de visitas e entregou-o ao rapaz. Liam-se nele estas palavras: Louis Pasteur, Instituto de Pesquisas Científicas, Paris.
O jovem universitário baixou a cabeça e não teve coragem de dizer uma só palavra. Agora sabia em frente de quem estava.
O fato acima, descrito na biografia de Pasteur, teria ocorrido em 1892."

Vida e Obra de Louis Pasteur (Autoria desconhecida).

É dele a célebre frase: “Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima."
(Louis Pasteur) (http://www.sitequente.com/frases/ciencia.html)

Esta frase de Pasteur parece confirmar-se por outros célebres cientistas:
 “A probabilidade de ter-se a vida originado por acaso é comparável à probabilidade de um dicionário completo resultar da explosão de uma tipografia”. (O Dr. Edward Cooling, biólogo americano)
Max Planck (1858-1947), prêmio Nobel de Física: “O impulso de nosso conhecimento exige que se relacione a ordem do universo com Deus”.
Albert Einstein (1879-1955), Nobel de Física em 1921: “Quanto mais acredito na ciência, mais acredito em Deus”. “O universo é inexplicável sem Deus”.
Guglielmo Marcone, inventor da comunicação sem fios, Prêmio Nobel de 1909: “Declaro com ufania que sou homem de fé. Creio no poder da oração. Creio nisto, não só como fiel cristão, mas também como cientista”.
Voltaire (1694-1778), racionalista e inimigo sagaz da fé católica, foi obrigado a dizer: “O mundo me perturba e não posso imaginar que este relógio funcione e não tenha tido relojoeiro”.
Todos estes cientistas, podemos dizer, são como os vários Reis Magos ao longo dos séculos. Os magos do oriente que, a um sinal visto na natureza, uma estrela diferente, vieram adorar o Rei Menino que acabava de nascer, no colo de Maria, são o prenúncio de homens de boa vontade de todos os povos da terra, que buscam a Deus com sinceridade de coração e que não são cegos aos sinais que o próprio Criador colocou neles mesmos e na natureza. Essas pessoas, se são dóceis, são conduzidas, pelos sinais de Deus na natureza, pelo testemunho das Escrituras  e dos cristãos, à gruta de Belém, onde encontram o Deus Menino, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós.
Já dizia São Paulo: ““Porquanto, o que de Deus se pode conhecer está à vista deles, já que Deus lho manifestou. 20Com efeito, o que é invisível nele - o seu eterno poder e divindade - tornou-se visível à inteligência, desde a criação do mundo, nas suas obras. Por isso, não se podem desculpar.” (Romanos 1,19)
Na pessoa dos Reis Magos, vemos um também um prenúncio da Igreja, que é formada por povos de toda a terra e de todas as culturas, que adoram o Deus verdadeiro e ao seu Filho Jesus Cristo no Espírito Santo. Este culto dos magos foi bem concreto, e expressa também o nosso culto cristão quando é “em verdade”.
 Os magos trouxeram ouro ao Deus Menino. Se aquele menino é o Criador do universo, a ele pertence a realeza. Por isso, em sinal de gratidão pelas riquezas que Dele receberam, os magos trouxeram ouro. Provavelmente este ouro foi providencial para São José. Provavelmente, com este, ele comprou ferramentas e construiu uma casa para a Sagrada Família obrigada a deixar tudo e emigrar às pressas para o Egito. Jesus não precisa, pois ele é Rei de tudo, mas os pobres e a evangelização precisam ainda hoje da nossa colaboração e ajuda espontânea como gratidão por tudo o que de Deus recebemos.
Os magos ofereceram incenso, símbolo do culto de adoração devido a Deus. Deus igualmente, não precisa dos nossos louvores, mas o poder louvá-lo, nada acrescentando à sua glória, contribui para a nossa salvação.
Enfim eles ofereceram mirra, símbolo daquele que sendo impassível, tornou-se passível para sofrer por nós na cruz para a remissão dos nossos pecados. Em Fátima nossa Senhora ensinou aos pastorinhos a oferecerem a gota do seu sofrimento em união com o oceano do sofrimento de Cristo para a salvação do mundo: “Sacrificai-vos pelos pecadores, e dizei muitas vezes, em especial sempre que fizerdes algum sacrifício:  “Oh Senhor, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores e pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria.”
Sejamos como os magos do oriente: guiados pela luz de Deus na natureza e nas Escrituras, cheguemos ao menino Jesus e lhe prestemos um culto em espírito e verdade.
Para partilhar em grupo:
Como se concretiza, hoje em dia, a frase de Pascal: “Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima." Pessoas simples e aparentemente sem muita instrução podem também chegar a uma grande sabedoria Divina? Como?


Pe. Marcelo Nespoli

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Somos porteiros

I Domingo do Advento Ano B 2017/2018

No final de cada ano, muitas empresas, escolas ou lojas fecham alguns dias para fazer um balanço de como foi o ano, se livrar daquilo que está encalhado, corrigir os erros e festejar as vitórias.    É tomando contato com a realidade de nossa vida, tanto das conquistas para dar graças a Deus, tanto dos erros para corrigi-los é que podemos nos planejar para o que nos resta da nossa vida.
Na Primeira leitura, o profeta Isaías acaba por fazer uma pintura realista da situação do Povo de Israel. Diz claramente que a situação difícil pela qual eles estavam passando não era simplesmente um mal ocasional ou passageiro, mas consequência de seus pecados.
Todo pecado gera sofrimento. Nossa vida não é como os desenhos animados de Tom e Jerry em que o gato e o rato aprontam, caem cofres pesados em suas cabeças e na outra sena do desenho tudo está como antes como se nada tivesse acontecido. Não. Nossa vida deixa marcas. Estas são aliviadas e suavizadas pelo sacramento da reconciliação e pela graça de Cristo, porém, a pessoa madura e realista sabe encarar de frente as consequências negativas de suas próprias ações ou omissões.
 Muitos gritam e reclamam: “Ah como eu sofro...”   Será que, se formos realmente sinceros conosco mesmos, não veremos também o sofrimento que já causamos a outros?
 Sem meias palavras, a pessoa realista vê a vida de frente e percebe nas alegrias e sucessos  de sua vida a graça de Deus e a sua correspondência a essa graça, assim como sabe reconhecer em certos sofrimentos e humilhações, as consequências dos próprios pecados e  dos pecados dos outros.
 Essa era a leitura que os profetas fizeram mais de uma vez da história do povo de Israel. O cristão maduro sabe encarar esses sofrimentos com serenidade e humildade, e enquadrá-los num caminho sereno de penitência e reconciliação.
Tudo isso só pode acontecer abrindo-se sem medidas à Graça e Misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Exemplo pujante disso é a comunidade de Corinto , que, no “balanço” que dela fez o Apóstolo São Paulo, foi achada fiel ao seu Senhor à graça “carismática” com a qual ela tinha sido agraciada. De fato, o Apóstolo atesta: “Não vos falta dom algum, a vós que aguardais a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Que beleza de Igreja estava em Corinto! Não lhes faltava nenhum dom do Espírito Santo. Mesmo suas faltas, como São Paulo vai denunciar no Capítulo 11, por exemplo,  não puderam apagar essa verdade.
Essa atitude realista e de contínua conversão, Nosso Senhor chama no Evangelho de “estar desperto”. Não “dormir” no próprio pecado. “46Feliz esse servo a quem o senhor, ao voltar, encontrar assim ocupado. 47Em verdade vos digo: Há-de confiar-lhe todos os seus bens. 48Mas, se um mau servo disser consigo mesmo: ‘O meu senhor está a demorar’, 49e começar a bater nos seus companheiros, a comer e a beber com os ébrios, 50o senhor desse servo virá no dia em que ele não o espera e à hora que ele desconhece; 51vai afastá-lo e dar-lhe um lugar com os hipócritas. Ali haverá choro e ranger de dentes.” (Mt 24,46-50)
Esta “casa de Deus” que deve ser bem servida e arrumada por nós, servos inúteis, com a força do Espírito Santo é antes de tudo a nossa alma, mas também as nossas famílias, a Igreja e o mundo.
Entre as funções que os servos desenvolvem, o Evangelho de hoje sublinha a do porteiro. Que faz um porteiro? Deixa entrar o dono da casa e todos os que são seus amigos ou que de alguma forma lhe prestam algum serviço e barra a entrada dos espiões, ladrões e inimigos do seu senhor. Que portas são essas de que Deus nos fez porteiros?
A porta de nossas almas são os nossos sentidos.  Por ela devem passar as boas companhias, bons livros, boa música, bons filmes, etc...Devem ser barrados as más companhias, maus livros, músicas indecentes, filmes perniciosos....; a porta de nossa família é a porta mesmo de nossas casas. Por ela devem entrar os verdadeiros discípulos de Cristo, a vida sacramental da igreja, alimentos saudáveis; devem ser barrados, falsos profetas, hereges, drogas, alimentação não sadia... ; Já as portas da Igreja devem estar abertas aos pecadores e fechadas para o pecado; as portas de nossa vida social devem estar abertas para a colaboração com os homens de boa vontade e fechadas para os que só querem implantar uma cultura anti-cristã, pagã e devassa.
Quais os inimigos de Nosso Senhor que devemos barrar? Quais os seus amigos que devemos acolher? Certamente os pobres e necessitados, nesse tempo de crise econômica, que, para além de seu aspecto difícil, pode ser, para nós, uma escola de partilha.
Que Jesus Eucarístico, que daqui a pouco vamos receber, ele que é o dono da casa que é a nossa alma, nos ensine , já nessa vida,  a sermos bons porteiros, e um dia, recebermos a recompensa dos servos fiéis.

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1- O Senhor nos mandou vigiar. Esta vigilância é sobretudo de nós mesmos, mas também sobre as pessoas que o Senhor nos confiou. O porteiro é assim instituído para deixar entrar o dono da casa e não deixar entrar os ladrões.
Temos deixado entrar o “Dono da casa”, através da oração, da Eucaristia, do rosário? Quais são os “ladrões” que os pais e educadores não  devem deixar em suas casas?
Pe. Marcelo Nespoli 

sábado, 21 de novembro de 2015

JESUS É REI

Jesus é Rei! Eis o grito de aclamação que toda a Igreja proclama e aclama no dia de hoje.
Independentemente se aceite ou não por parte deste mundo, ele é Rei. É um facto consumado, pois tal investidura não vem de nenhum homem, mas do próprio Pai que está nos Céus: “14Foram-lhe dadas as soberanias, a glória e a realeza. Todos os povos, todas as nações e as gentes de todas as línguas o serviram. O seu império é um império eterno que não passará jamais, e o seu reino nunca será destruído.» (Dan 7,14) É justo que ele reine sobre nós, pois Ele é o “…o Alfa e o Ómega - diz o Senhor Deus - aquele que é, que era e que há-de vir, o Todo-Poderoso.” (Ap 1,8) Que quer dizer que Ele é o Alfa?  A Carta de São Paulo aos Colossenses responde-nos: “15É Ele a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criatura; 16porque foi nele que todas as coisas foram criadas, no céu e na terra, as visíveis e as invisíveis, …, todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele..” (Col 1,15-17) Mais do que nossa origem, ele é nosso Salvador, pois depois da loucura do pecado, ele nos redimiu por sua dolorosa Paixão e Ressurreição. Porém, para o mistério da nossa redenção se completar, Jesus tem de ser não somente o nosso Salvador, mas também o nosso “Senhor”.
 Existe aqui uma grande diferença. Para entendermos melhor, basta usarmos o exemplo das monarquias parlamentares que temos no mundo como no caso da Inglaterra. A rainha Elizabeth II,  neste país, é uma personagem muito importante. Vemos a sua imagem e seu retrato em toda parte: até nas cédulas e nas moedas, nos selos postais, nas repartições públicas. Tem um palácio, ricas jóias e até uma carruagem puxada por vários cavalos. Ela é a rainha!.... Entretanto, não é ela quem governa a Inglaterra. A autoridade suprema não é ela; são-no o primeiro-ministro e o parlamento. No parlamento está a fotografia da rainha mas não é ela quem governa. A rainha é para os desfiles, para as festas importantes, os aniversários, mas não é ela quem governa o país. Ela certamente assina os tratados e as leis, mas estes são elaborados pelo primeiro-ministro e o parlamento.  Há cristãos que encaram o reinado de Jesus Rei dos Reis, como a rainha da Inglaterra. Cada qual faz as leis sobre como quer viver, traça os projectos de toda a sua vida, toma as suas decisões, e depois vai (se vai) a Jesus para que ele as aprove e assine, mas não lhe permite ter parte alguma na sua elaboração.
A diferença entre um cristão e outro que não o é, ainda que se diga tal, é que o pagão fala, diverte-se, pensa, vive segundo os desejos da carne, com os critérios mundanos e fazendo sempre a sua própria vontade. O cristão ao contrário, vive segundo a vontade do Senhor, dirigido pelos valores do Evangelho, com os critérios de Cristo e impulsionado pela força do Espírito.  São Vicente Pallotti falava sobre isso.: “… antes de dar começo a qualquer actividade, somos obrigados a perguntar-nos, em cada uma das circunstâncias do dia, como pensaria, como falaria ou como agiria Nosso Senhor Jesus Cristo. De qualquer forma, em tudo e sempre, devemos esforçar-nos pelo que seja mais perfeito.” (OO. CC. III, 42)
Neste mundo, ainda não vemos que Jesus é o Senhor. O próprio Jesus disse a Pilatos: “A minha realeza não é deste mundo” (Jo 18,36). Porém virá esse Reino como nós pedimos no Pai Nosso: “…venha a nós o Vosso Reino…”. A segunda leitura afirma-o: “7Olhai: Ele vem no meio das nuvens! Todos os olhos o verão, até mesmo os que o trespassaram. Todas as nações da terra se lamentarão por causa dele. Sim. Ámen!” (Ap 1,7)
Como fazer para não nos lamentarmos na sua vinda, mas pelo contrário, exultarmos de alegria ? Isso acontecerá se desde agora Ele for nosso Senhor e Rei.
Ninguém nunca se arrependeu de ter aceitado o desafio de dizer: “Jesus é o Senhor.” Se queres diga:  Da minha família e das minhas amizades: Jesus é o Senhor. De meu passado…; Dos meus estudos e trabalhos…; De minha saúde e enfermidade….; De minha pobreza ou riqueza… ; De meus amigos e conhecidos… ; De meu corpo e da minha alma… ; De todas as minhas relações pessoais…. De minha sexualidade e da minha emotividade… ; De minha pátria e de meu lar…; De minha casa e de meus bens materiais… ; De minhas esperanças e temores…; De minha vida política e social…; De minha imaginação e memória… ;De minha inteligência e vontade… ; De meus olhos, ouvidos, mãos e pés…; De minha maneira de divertir-me… ; De minha maneira de comer, vestir, pensar e falar….
Se quiseres podes inclusive assinar o que disseste:  “Senhor sei que tomaste a sério as minhas palavras assim como eu tomei a sério o Teu chamado. Abro-te completamente as portas do meu coração. Fica comigo por toda a vida. Amém.*
Data: …../…../………..    Assinatura: ………………………………………………
Para Os cenéculos.
O Reino virá. Mas como podemos apressar a vinda do Reino de Cristo?

*Cf. Prado Flores; Ide e Evangelizai os Baptizados; pp. 63-69.

Pe. Marcelo

domingo, 15 de novembro de 2015

O FRUTO NA PERSEVERANÇA

Estamos há duas semanas do fim do ano litúrgico. Neste tempo que antecede à Solenidade de Cristo Rei do Universo (próxima semana) o nosso coração espontaneamente medita em uma virtude muito importante da vida cristã que é a perseverança, e mais do que isso, a perseverança final.
A primeira leitura do livro do profeta Daniel, que foi escrita em tempos difíceis para o povo de Israel, falava da recompensa daqueles que se mantiveram firmes até o fim: “3Os que tiverem sido sensatos resplandecerão como a luminosidade do firmamento, e os que tiverem levado muitos aos caminhos da justiça brilharão como estrelas com um esplendor eterno.” (Dn 12,39) Mesmo que alguém já tenha ensinado a muitos os caminhos de Deus, nunca deve dar-se por satisfeito. Não esquecer o que Jesus diz no Evangelho de hoje: que durante os tempos difíceis que antecederão a sua volta “estrelas começarão a cair do céu” (Mc 13) Que estrelas são estas?
Basta ter um mínimo de conhecimento de astronomia para saber que isso é completamente impossível de forma física. A terra sim poderia cair numa estrela, mas nunca a estrela na terra. Por exemplo, o Sol é centenas de vezes maior que a terra, e é uma das menores estrelas. Isto vem ilustrado plasticamente em uma das salas do Museu de História Natural de Londres,onde o Sol é representado do tamanho de uma melancia, e a terra, como seu caroço, colocado a uma distância de sessenta metros. Como pode então uma estrela cair na terra? As estrelas que caíram, a que se refere a Palavra de Deus,  são os anjos que não guardaram o seu lugar no céu e foram excluídos da visão de Deus face -a-face. Sim , pois explica a obra “A mística cidade de Deus”  de Sr. Maria de Jesus Agreda, que houve também um tempo em que os anjos, embora tivessem um grande conhecimento de Deus, não gozavam ainda da visão beatífica, da visão de Deus face-a-face. Houve uma batalha no céu. Que batalha, se os anjos não tem corpo? Houve uma batalha sim, a nível de idéias e persiuasões onde São Miguel Arcanjo guerreava, persuadindo os anjos indecisos a perseverarem na obediência e no serviço de Deus, enquanto Lúcifer, persuadia seus sequazes à rebelião e à desobediência. Em determinado momento esta rebelião de parte dos anjos e a decisão dos anjos bons se tornaram tal, que Deus, em sua sabedoria Infinita, percebeu que não teriam mais volta, então deu a visão beatífica aos anjos bons, o que os confirmou definitivamente em graça e excluiu para sempre os maus da mesma. Vemos um reflexo pálido disso em nosso mundo, quando pais, muito embora amarem muito os filhos, depois de aconselharem e repreenderem, são constrangidos, pelos mesmos, a afastá-los de casa, pois começaram a roubar os pertences da própria família, para comprar drogas ou outras coisas.  Os filhos, que deveriam amar, honrar e obedecer aos pais, rebelam-se contra os mesmos.
 A estabilidade na graça dos anjos bons se explica pois a visão de Deus os atrai, já, irresistivelmente como um imã atrai irresistivelmente um metal. Assim é o Bem Supremo contemplado face-a-face.
 Ainda não estamos neste estado. Por isso não nos admiremos que algumas pessoas que outrora serviam a Deus tenham caído vergonhosamente.  Sobre isso fala Santo Agostinho: “Cantemos Aleluia, ainda inseguros na terra, para podermos cantá-lo um dia em plena segurança no Céu. Mas porque estamos ainda inseguros? Não queres que me sinta inseguro quando leio: Porventura não é uma tentação a vida do homem sobre a terra? Não queres que me sinta inseguro quando me dizem: Vigiai e orai para não cairdes em tentação? Não queres que me sinta inseguro onde as tentações são tão frequentes que a própria oração nos obriga a repetir: Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido? (…) e acrescenta imediatamente, por causa dos perigos futuros: Não nos deixeis cair em tentação. Como pode sentir-se bem o povo que clama juntamente comigo: Livrai-nos do mal? E contudo, irmãos, mesmo no meio destes males, cantemos Aleluia ao bom Deus que nos livra do mal. (…) (Santo Agostinho)
                Quando então se cumprirá a Palavra da segunda leitura de hoje: “De facto, com uma só oferta, Ele tornou perfeitos para sempre os que são santificados”. (Hb 10,14) Quando acontecerá isso? Já agora? Sim é possível. Há santos que já, nesta vida, se tornaram tão embebidos na Divina graça que viviam como se já “vissem o invisível”. Mas para a maioria de nós, esta vida é a grande tribulação e devemos clamar continuamente como no Salmo de hoje: “Guardai-me ó Deus porque em vós me refugio”. Até que possamos experimentar o que vem logo a seguir: “Vós me ensinais vosso caminho para a vida; junto a vós felicidade sem limites, delícia eterna e alegria ao vosso lado”. (Salmo 15,11) Já  possuimos o penhor disso, na Eucaristia que em breve receberemos.


Para os Cenáculos de Evangelização.

Partilha alguma situação na tua vida onde se fez verdade a Palavra do Senhor:  “E a (semente) que caiu em terra boa são aqueles que, tendo ouvido a palavra, com um coração bom e virtuoso, conservam-na e dão fruto com a sua perseverança.” (Lc 8,15)
Pe. Marcelo

sábado, 7 de novembro de 2015

O OLHAR DE JESUS

Estamos no mês de Novembro. Neste mês a Santa Igreja aponta-nos como objeto da nossa caridade cristã, de modo especial as almas dos fiéis que já partiram desta vida e se encontam ainda em estado de purgatório. A segunda leitura garante-nos que só temos uma vida aqui na terra:  “E, assim como está determinado que os homens morram uma só vez e depois tenha lugar o julgamento…” (Hebreus 9,27) Este versículo exclui de forma clara a doutrina da reencarnação. Como daqui, não levamos nada a não ser o bem que fazemos com a ajuda da graça de Deus, a liturgia aponta para um outro tema muito importante que é o da generosidade.
Ninguém, diz a segunda leitura, foi mais generoso em oferecerdo que Nosso Senhor Jesus Cristo, pois não ofereceu simplesmente algo, mas a si mesmo, de modo especial dodo o seu sangue precioso: “... assim também Cristo, que se ofereceu uma só vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá uma segunda vez, não já por causa do pecado, mas para dar a salvação àqueles que o esperam”. (Hb 9,28)
 Para que esta copiosa Redenção conseguida por Nosso Senhor produza plenos frutos em nós, e por nós, se faz necessário deixarmo-nos iluminar por este olhar de Cristo, que vindo sobre nós, revela toda a nossa verdade. Revela quem somos e como estamos diante de Deus.
O olhar de Jesus é infinitamente mais poderoso do que qualquer raio X que temos em nossos hospitais, pois revela a verdade interior de nossa alma. É um olhar que sabe ver o profundo de cada ser humano, e por isso mesmo, não obstante o amor com que nos ama, sabe também pôr às claras toda hipocrisia: “«Tomai cuidado com os doutores da Lei, que gostam de exibir longas vestes, de ser cumprimentados nas praças, 39de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes; 40eles devoram as casas das viúvas a pretexto de longas orações. Esses receberão uma sentença mais severa.»” (Mc 12,38-40)
O olhar de Jesus é um olhar que  sabe que por de traz de alguém que oferta muito e à vista de todos, pode não estar todo bem que aparenta. Jesus não se deixa guiar pela aparências: “...porque todos deitaram do que lhes sobrava”...
Que nosso Senhor tenha pena e compaixão de nós e de nossas pastorais quando aparentamos ser mais piedosos do que somos, mais generosos do que somos, mais santos do que somos na realidade.
 Ao contrário, o  que aos outros parecia ser uma mesquinharia, Jesus vê como um  rasgo de fé e generosidade: “Chamando os discípulos, disse: «Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou no tesouro mais do que todos os outros; porque todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía, todo o seu sustento” (Mc12,43-44)
Pode ser que esta viúva que doou estas pequenas moedas, tudo o que possuía para viver, tinha no coração e na mente o texto da primeira leitura de hoje, onde a viúva de Sarepta, ao ajudar o profeta com o pouco que tinha, atraiu sobre si e a sua família a bênção de Deus. O que aconteceu com ela depois deste fato nós não sabemos. O Evangelho não conta. Sabemos apenas que ela atraiu o olhar compassivo e amoroso de Jesus. Certamente onde pousa este olhar compassivo e amoroso, também a Divina Providência não faltará, pois Cristo é a mesma Palavra Eterna que, no Antigo Testamento, afirmou pelo profeta Malaquias: “10Pagai integralmente os dízimos ao tesouro do templo, para que haja alimento em minha casa. Ponde-me à prova - diz o Senhor do universo - e vereis se não vos abro os reservatórios do céu e não espalho em vosso favor a bênção em abundância. 11Em vosso favor afugentarei o gafanhoto para que ele não destrua os frutos da terra, e a vinha não seja estéril nos campos - diz o Senhor do universo.” (Malaquias 3,10-11) A prosperidade aqui prometida vai infinitamente mais longe do que a prosperidade nesta vida, como afirmam algumas seitas neo-pentecostais. O “dai e dar-se-vos-há” de Jesus é muitíssimo mais do que uma prosperidade material. É o fruto de uma caridade sincera que, como diz a Sagrada Escritura, é mais forte do que a morte e leva a si mesmo e aos outros para o Céu.
São Vicente Pallotti já intuía isto. Inclusive esta foi uma das cacusas que deu origem à sua fundação, a União do Apostolado Católico: a administração de dinheiros doados com fim missionário. São Vicente Pallotti, em Roma, foi tomando consciência das necessidades da Igreja, pois era director espiritual de colégios para as missões. Percebeu a necessidade, por exemplo, de imprimir o livro “Máximas Eternas” de Santo Afonso Maria de Ligório em língua árabe. Para esse fim, pediu a um leigo, Giacomo Salvaci, que fizesse uma colecta entre os comerciantes de Roma. No início ele hesitou, mas depois, como o santo insistisse, pôs-se a caminho, descrente, contudo, do êxito de seu empreendimento. No fim do seu trabalho, constatou-se a recolha de um a soma muito superior ao necessário. Para não expor essa obra ao falatório das pessoas, Pallotti fundou uma pequena associação com o fim de gerir esses recursos em prol das missões, com a participação também de fiéis leigos. Mais tarde foi que surgiu a Congregação dos padres, irmãos e irmãs do Apostolado Católico.
Peçamos a Nossa Senhora que também a nossa vida atraia o olhar, senão complascente, pelo menos compassivo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que jamais fiquemos fora da verdade deste olhar, e que a oferta a Deus do que somos e temos, produza verdadeiros frutos para a vida Eterna.

Para os Cenáculos: Partilha alguma experiência tua ou de outra pessoa em que se fez verdade o princípio Evangélico, acolhido na chamada “Oração de São Francisco”: “É dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado”.

Pe. Marcelo

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

“A ESPERANÇA NÃO ENGANA” (Rm 5,5)

O dia de todos os santos que estamos a celebrar, longe de ser uma festa melancólica ou saudosista, pelo contrário é uma festa cheia de alegria e encanto. Podemos dizer que é a nossa festa.
Sim, pois numa época em que os cristãos eram ainda muito poucos São João teve, na Ilha de Patmos,  a seguinte visão: “Depois disto, apareceu na visão uma multidão enorme que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé com túnicas brancas diante do trono e diante do Cordeiro, e com palmas na mão. ( Ap 7,9 ss.) Ou seja, em profecia, João já no início do Cristianismo, teve a visão de Jesus ressuscitado, Senhor da história a Jerusalém Celeste que o louvava  formada de povos de todas as nações e linguas.  A confirmar que esta é uma festa que nos diz respeito, o próprio São Paulo chama, por exemplo, os cristãos vivos de Filipos de santos: “Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com seus bispos e diáconos” (Fil 1,1) E isto ele o faz, em suas cartas, cerca de trinta vezes.
Em sentido estrito, porém, celebramos neste dia, aqueles que já se encontram de posse daquele bem por excelência e que se encontram unidos a nós pelos vínculos da caridade que Nosso Senhor foi criando durante a nossa vida terrena e que é aperfeiçoado na vida Eterna. Muitos santos como Santa Faustina e Santa Teresinha do Menino Jesus, inclusive, disseram que sentiam que a sua missão verdadeira começaria com a sua partida deste mundo, tal o realismo com que sentiam em si o mistério da Comunhão dos Santos.
Contemplar essas realidades nos faz: “… alegres na esperança, pacientes na tribulação, perseverantes na oração.” (Rm 12,12)
  Dizia o Papa Bento XVI na sua Encíclica sobre a Esperança Cristã: “Somente quando o futuro é certo como realidade positiva, é que se torna vivível também o presente.” (Spes Salvi, nº 2)
Daí vemos a importância fundamental do que escutamos em cada Santa Missa: “Corações ao alto” (Sursum corda). Sem contar os santos canonizados pela Igreja, que são mais de vinte mil, temos ai uma multidão anónima de fiéis, inclusive nossos familiares que já gozam daquele plenitude de amor e vida que lhes comunica a visão de Deus sem mediação de criatura alguma. Somente esperam o Dia do Senhor, onde também seus corpos participarão da Ressurreição de Cristo.
O dia 31 de Outubro era justamente a festa pagã dos povos Celtas que pensavam que, na época das colheitas, as almas dos mortos vinham se alimentar e por isso era necessário espantá-los com imagens aterrorizantes... Quando estes povos foram evangelizados, a Igreja teve a delizadeza de substituir esta festa pagã pela festa de todos os Santos no dia 1 de Novembro. Quem não se converteu, continuou a celebrar tal festa pagã, e por isso, é lógico que não se coaduna com o verdadeiro espírito cristão, e não deve ser estimulada como uma espécie de “folclore”. Isto, sem dizer que algumas seitas satânicas aproveitam deste dia para fazer os seus desmandos. Pelos terrores que se promovem neste dia em alguns lugares, parece até uma “festa dos condenados’, que não tem motivo nenhum para festejar.
Já no dia dois, celebramos uma realidade correlata à de Todos os Santos. Nos diz também o catecismo: “Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não de todo purificados, embora seguros da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do céu. A Igreja chama Purgatório a esta purificação final dos eleitos, que é absolutamente distinta do castigo dos condenados…” (Catecismo nº 1030 e 1031)
Nós podemos ajudar estes nossos irmãos que a tradição da Igreja chamou de Igreja padecente. Esta ajuda consiste na oferta do Sacrifício da Santa Missa e também das indulgências, que são concessões que a Igreja, em posse das “chaves do Reino” que lhe entregou Jesus Cristo, faz para os seus fiéis em algumas circunstâncias. Um desses tempos de graça é justamente este início de Novembro. Quem visita, com o coração sincero e espírito de fé, um cemitério e nele ore pelos fiéis defuntos, lucra indulgência em favor das almas do purgatório.  Dos dias 1 a 8 de Novembro esta indulgência é plenária e nos demais dias do ano é parcial. As condições para a indulgência plenária são bem conhecidas: Ter se confessado ou se confessar em breve (estar em estado de graça), Receber a Eucaristia, rezar na intenção do Santo Padre e fazer a obra prescrita, no caso a visita ao cemitério com oração pelos falecidos. Vamos fazer amigos no céu? É o convite que a Santa Igreja nos faz.
Para os Cenáculos:
1-      Em meio aos sofrimentos desta vida, que importância tem a Esperança cristã?
Pe. Marcelo


sábado, 24 de outubro de 2015

BARTIMEU, UM CEGO DE OUVIDOS ATENTOS

Nos dois domingos anteriores,  e neste, estamos ouvindo o que contribui e o que não contribui para o seguimento de Nosso Senhor na vocação de cada pessoa. Vários seguem Jesus no caminho para Jerusalém. Com quais nos identificamos? Algumas atitudes ajudam neste seguimento, outras atrapalham...
Quais não ajudam? O apego do “Jovem rico”... o “carreirismo de Tiago e João”...
 Pallotti, querendo livrar os seus filhos espirituais deste último engodo, acrescentou às promessas normais das congregações a promessa de espírito de serviço, fazendo com que o objetivo maior dos consagrados fosse salvar almas e não uma carreira...
Neste domingo vemos um cego que o era fisicamente, mas estava longe de sê-lo espiritualmente. Não enxergava por uma limitação física que o tornava até mais humilde, pois dependente, em  quase tudo, dos outros. No entanto, quando soube que era Jesus o Senhor e Mestre de Nazaré que passava, sua fé se acendeu e começou a clamar: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim”. A princípio as pessoas tentaram fazê-lo calar, mas quando ouviram que Jesus o chamava, encorajaram-no.  Clamou até que ouviu o chamado. O olhar amoroso de Jesus sobre nós é a nossa vocação: -“Chamai-o.» Chamaram o cego, dizendo-lhe: «Coragem, levanta-te que Ele chama-te”. 
Em que circunstâncias Jesus o chamou? Aqui cabe um precioso detalhe.  O versículo 46, que é aquele que inicia o Evangelho de hoje, diz textualmente o seguinte: “Chegaram a Jericó. Quando ia a sair de Jericó com os seus discípulos e uma grande multidão, um mendigo cego, Bartimeu, o filho de Timeu, estava sentado à beira do caminho”.   Imediatamente depois que o Evangelista disse que Jesus Chegou a Jericó, foi logo dizendo que ele estava já de saída....
Como explicar isso? Jerusalém é o protótipo da cidade celeste, Jericó é o símbolo deste mundo, não daquele mundo que Jesus amou a ponto de dar a vida, mas do mundo no sentido negativo de “mundanidade”. Assim, comparado com a eternidade, a passagem de Jesus por este mundo e a nossa própria vida, não deveriam nem mesmo caber em um versículo. Matematicamente, também as ciências modernas nos levam a pensar assim. Os cientistas, atualmente,  estimam a idade do universo em 13,7 bilhões de anos. Se fizermos uma escala dessa idade para 14 anos, nossa vida, que normalmente tem cerca de 80 anos, a mesma teria a duração de cerca de 3 segundos”.   Neste sentido entendemos uma frase de são Vicente Pallotti: “Deus Criou os homens nesta temporalidade apenas para fazê-los felizes na eternidade.” Por isso entendemos como  é preciosa a graça da vocação e como devemos aproveitar desta graça para viver bem. Devemos ter a prontidão do Jovem Samuel: «Aqui estou, pois me chamaste.» (1 Samuel, 3,8)
Na realidade , se vermos as estatísticas,  a cegueira  física é uma minoria da população, mas a espiritual, aquela que impede de seguir a Cristo rumo a Jerusalém Celeste no caminho da Cruz, ou seja, do dom sincero de si mesmo em sua vocação é, certamente, muito mais difusa. Muitos, até nas doutrinas que ensinam propõe um Céu e um cristianismo, quase somente para este mundo, como se, a todo custo, os homens tivessem que desejar um Céu aqui e agora.  Certa vez, São João Paulo II, cuja memória comemoramos nesta semana que passou,  num discurso aos jovens chilenos, disse com voz enfática:
-“ Tendes sede de vida”... (afirmativa) “-De vida eterna”? ...(seguiu-se um silêncio);
 Perguntou mais alto: “De vida eterna? – “Sim” (seguiu-se um “sim” tímido);
 O papa perguntou pela terceira vez quase que gritando:
 “-De vida eterna”? – Sim (aí sim os jovens responderam bem alto e com grande entusiasmo)
Ao nosso mundo tão apegado aos próprios bens, tão apegado ao poder sem serviço humilde ao irmão, tão apegado ao prazer ilícito a todo custo, Jesus repete: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”.
Certa vez, em Odivelas aconteceu um fato curioso a esse respeito. A esposa do coordenador do grupo de oração da Paróquia era cega. Custava-nos ver aquela senhora chegando ao grupo de oração sempre amparada pelo seu esposo. Dentro do nosso coração, tínhamos a intuição que Nosso Senhor a queria curar. Por isso, não raras vezes, depois do grupo de oração, impúnhamos as mãos e rezávamos por ela pedindo a Jesus a Graça de sua cura física. Nada aparentemente ia melhorando... Fui transferido para outra paróquia, e certo dia, em visita a Odivelas e celebrando a Eucaristia, qual não foi a minha surpresa quando vi aquela senhora que era cega, levantar-se para fazer a leitura da santa Missa. Depois da mesma, fui cumprimenta-los alegremente e perguntar o que tinha acontecido.  A resposta foi que ela tinha sofrido uma cirurgia e estava já vendo. Nosso Senhor , neste caso, não quis curá-la diretamente , mas quis usar uma mediação humana na pessoa do cirurgião. A segunda leitura de hoje fala do sacerdócio de Cristo. Mas fala também do sacerdócio de Cristo comunicado a seres humanos. De quem o autor da carta aos Hebreus poderia estar falando quando afirmou: “Pode compadecer-se dos ignorantes e dos que erram, pois também ele está cercado de fraqueza; por isso, deve oferecer sacrifícios, tanto pelos seus pecados, como pelos do povo”. (Heb 5,2s)
No nosso caso de cegos espiritualmente por tanta impureza propagada aos quatro ventos , Nosso Senhor também quer usar de uma mediação: O sacramento da Reconciliação.
Se o fizermos, participaremos da alegria dos que retornam do exílio na primeira leitura de hoje, mesmo tendo entre eles cegos e aleijados (símbolo da fraqueza); gestantes e parturientes ( símbolo daqueles que têm uma responsabilidade a mais de cuidar dos outros).
O cego do Evangelho tinha algo de bom: não era surdo... Mesmo que já tenhamos escutado a voz de Cristo muitos anos atrás no início de nossa vocação, peçamos a Ele que possamos escutar sempre a sua voz no hoje de nossa vida, pois o Senhor continua a chamar-nos com várias vocações dentro da nossa vocação, seja num pobre que nos pede algo, seja no que não tem a consolação da fé, seja numa renovação de vida e trabalho missionário mais desafiador, seja na chegada de mais um filho nos que são casados. É sempre uma vocação dentro da própria vocação.
Virgem Maria, Mãe das vocações, ensina-nos a aproveitar esta graça para seguir o Vosso Filho no caminho que nos leva à Jerusalém Celeste, Amém.

Para os cenáculos:

O que significa para ti, hoje, aproveitar a graça da própria vocação? Já escutaste o chamado de Cristo?

sábado, 10 de outubro de 2015

NÃO SÓ SALVOS, MAS SANTOS

Na Próxima segunda-feira comemoraremos a festa de nossa Padroeira, Nossa Senhora Aparecida. Estamos, porém, assistindo algo inédito na história do nosso País, e, talvez do mundo inteiro.  Já ouvimos falar de políticos que foram vaiados, mas  governantes que foram xingados em estádios de futebol, isso é inédito. Sempre guardou-se um certo respeito pelas autoridades. Mas diante de tantos escândalos de corrupção, parece que a panela de pressão explodiu. A válvula não consegue mais dar conta da pressão. Mas diante desse quadro, podemos ter um posicionamento que o Evangelho de hoje denuncia.
 Pode acontecer que nos achemos até muito bons. Se o nosso termo de comparação são os corruptos, os mensalões, os petrolões, os que propagam o casamento gay, podemos achar que somos até bem “bonzinhos”. Não mato, não roubo...  Diante disso tudo podemos ir até Jesus com as motivações do jovem rico do Evangelho, que até, a princípio, eram boas. “«Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» (Mc 10,17) Motivação válida, sem dúvida. A salvação da própria alma não é negócio de pouca importância. “Jesus disse: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus. Sabes os mandamentos: Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes, honra teu pai e tua mãe”. (Mc 10,18 s) Jesus não pergunta se ele conhecia os mandamentos, mas afirma-o – “Sabes os mandamentos”-, porque desde toda a eternidade já o conhecia.
“Ele respondeu: «Mestre, tenho cumprido tudo isso desde a minha juventude”. Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele e disse: «Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me”. (Mc 10,20) O Evangelho diz que Jesus olhou para ele com amor, com simpatia e faz-lhe um chamamento. Chamamento, vocação, é o olhar amoroso de Jesus para cada um de nós. “Se queres ser perfeito,.....” Esta é a nossa vocação. São Paulo vai falar sobre ela na carta aos Efésios: “Foi assim que Ele nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis na sua presença, no amor”. (Efésios 1,4) Ou seja, Jesus Nosso Senhor revelou a esse jovem a sua alta vocação.
No entanto ele saiu triste porque possuía muitos bens.
Tristeza é o sentimento recorrente no coração de cada ser humano quando ele não corresponde à sua  vocação.
Com esta atitude, vemos que, na verdade, este jovem não observava realmente todos os mandamentos. Não observava logo o primeiro: “Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças”. (Mc 12,29-30)
Na verdade a avareza não era  nem mesmo o seu maior pecado, mas sim o orgulho e a impiedade. Se ele, como Pedro, tivesse admitido as suas debilidades e pedido a graça da conversão, Nosso Senhor teria lhe dado, certamente, uma graça atual e ele seria o décimo terceiro Apóstolo. Pedro, humildemente, certa vez, disse: “«Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador”. (Lc 5,8) Ao que Nosso Senhor respondeu: “«Não tenhas receio; de futuro, serás pescador de homens”. (Lc 5,10)   Se ele tivesse dito: “- Senhor, bem conheces a minha fraqueza, meu apego a meus bens. Tende piedade de mim e dá-me a graça de me desapegar de tudo aquilo que me impede de abraçar a minha vocação...”. Certamente Nosso Senhor o teria atendido.
Com isso compreendemos as palavras de Nosso Senhor, a seguir, quando respondeu  à perplexidade dos Apóstolos: “Então quem pode salvar-se? Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível”... Ou nas Palavras de São Padre Pio: “Quem reza se salva, quem não reza se condena”. Visto  que “... é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie”. (Ef 2,8)
Vale a pena rezar e dedicar-se a essa empresa que é a maior de todas: a salvação das almas. Estamos, neste ano de 2015 a recordar os 500 anos do nascimento de Santa Tereza de Jesus. Quando criança ela falava ao irmãozinho e o irmãozinho a ela: “Há o Céu... e é para sempre, para sempre, para sempre.... Há o inferno, e é para sempre, para sempre , para sempre...”  Mais tarde, já monja ela diria: “Estou disposta a dar mil vidas pela salvação de uma  única alma”.  Se fizermos as contas, dizia um padre comentador, mil vidas seriam no máximo cem mil anos. O que é cem mil anos na eternidade de uma única alma? Nada... Só os nossos foceis pré-históricos que temos em alguns museus tem 130 milhões de anos.
Diante da negativa do jovem rico, Pedro toma a voz dos doze e pergunta: “ «Aqui estamos nós que deixámos tudo e te seguimos.» Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: quem deixar casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, no tempo presente, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, juntamente com perseguições, e, no tempo futuro, a vida eterna”. Cem vezes mais e a vida eterna.... por exemplo: um seminarista que, impulsionado pela graça, com reta intensão renuncia a um emprego ou ao matrimônio  para servir a Cristo na vida consagrada ou no sacerdócio verá o seu instinto paternal derramar-se sobre muito mais pessoas, e ganha, certamente, muito mais pais , mães, irmãos e irmãs, junto com perseguições e no mundo futuro a vida eterna.
Uma pergunta pode surgir: Este Evangelho, então, pode ser vivido apenas pelos que optam pela vida consagrada e pelos que são muito pobres? A história da Igreja nos responde que não. Existem, muitos reis e rainhas, homens de posses, que usaram seus bens com desprendimento para a glória de Deus e a ajuda dos pobres. Vemos uma Santa Isabel rainha de Portugal que ajudou a construir Igrejas e era pródiga em cuidados com os pobres, até tratando disso pessoalmente...
É licito acumular alguns bens, principalmente se se tem família, quando sua origem é lícita e também a finalidade do uso é reta, ou seja, a glória de Deus, e o bem das pessoas, principalmente dos que lhe são dependentes e dos mais pobres. Quando o meio de aquisição é ilícito e ou a finalidade a que se destina é somente os próprios prazeres, vemos o que estamos assistindo. A desmoralização de autoridades.
É hora de rezarmos a nossa Padroeira pelo Brasil com o terço nas mãos, pedindo que nos livre de ideologias nefastas como o comunismo, a desmoralização das instituições a  que levou o apego a riquezas e ao poder conseguidos ilicitamente. Peçamos a Nossa Senhora que sejamos não somente salvos, mas santos. Conduze o nosso Brasil Virgem Aparecida, como nos dizia São João Paulo II, a uma “medida alta da vida cristã”. Assim seja.
Pe. Marcelo Nespoli SAC

sábado, 22 de setembro de 2012

A “CATEQUESE” DE CRISTO


No Evangelho de hoje vemos Jesus a ter uma “catequese” particular com os seus discípulos: “Partindo dali, atravessaram a Galileia, e Jesus não queria que ninguém o soubesse, porque ia instruindo os seus discípulos.” (Mc 9,30-31)  Ensina-lhes o caminho do amor que passa pela cruz: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens que o hão-de matar; mas, três dias depois de ser morto, ressuscitará.” Jesus, como bom pedagogo fortalecia os seus discípulos alertando dos sofrimentos do Seu caminho.
A Igreja, como mãe e mestra nos vem também alertar, na presente liturgia, dos combates que Cristo viveu e também o cristão é chamado a travar.
Na primeira leitura alerta-nos das perseguições do mundo: “Armemos laços ao justo porque nos incomoda, e se opõe à nossa forma de actuar. Censura-nos as transgressões da Lei, acusa-nos de sermos infiéis à nossa educação. Ele afirma ter o conhecimento de Deus e chama-se a si mesmo filho do Senhor!  Ele tornou-se uma viva censura para os nossos pensamentos; só o acto de o vermos nos incomoda,…” (Sabedoria 2,12-14)
Na segunda leitura, vemos aquele que é talvez o pior combate, pois trata-se de “inimigos domésticos”, em nós mesmos: “De onde vêm as guerras e as lutas que há entre vós? Não vêm precisamente das vossas paixões que se servem dos vossos membros para fazer a guerra? Cobiçais, e nada tendes? Então, matais! Roeis-vos de inveja, e nada podeis conseguir? Então, lutais e guerreais-vos!” (Tg 4,1-2) Não esqueçamos também aquele que quer instigar tais tendências que é o maligno. Eis ai o tríplice combate do Cristão: o mundo, a carne e o demónio. Mas não desanimemos, pois Nosso Senhor nos garante através de São Paulo: “Não vos surpreendeu nenhuma tentação que tivesse ultrapassado a medida humana. Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças, mas, com a tentação, vos dará os meios de sair dela e a força para a suportar.” (1 Cor 10,13) O que precisamos é clamar como no Salmo de hoje: “Mas o Senhor é o meu amparo, Ele me protege a vida.”  Será que uma das falhas pedagógicas mais crassas do nosso tempo, não tem sido prometermos aos nossos educandos um “mar de rosas”? Santo Agostinho falando aos pastores, exorta-os a não ser assim. Citando a Escritura ele disse: “Todos os que quiserem viver piedosamente em Cristo sofrerão perseguições”, e por tua conta vais dizendo: -‘Se viveres piedosamente em Cristo terás tudo em abundância. E se não tens filhos hás de tê-los e poderás alimentá-los com abundância sem que nenhum deles te morra’. É este o teu processo de construir? Repara no que fazes e onde constróis.  Estás a construir sobre a areia. Virão as chuvas, transbordarão os rios, soprarão os ventos e investirão sobre esta casa, e ela cairá e será grande a sua ruína. Retira da areia tua construção, edifica sobre a pedra; quem deseja ser cristão, tenha o seu fundamento em Cristo. Considere os sofrimentos humilhantes de Cristo; olhe para Aquele que sem pecado pagou o que não devia…”
Estamos para iniciar o ano da Fé. Deve ser assim também um ano catequético, pois é o aprofundamento da fé. Jesus nos garante no Evangelho de hoje: “Quem receber um destes meninos em meu nome é a mim que recebe; e quem me receber, não me recebe a mim mas àquele que me enviou.»” (Mc 9,36) Precisamos de mais pessoas corajosas que queiram ensinar a fé e os mandamentos de Deus às nossas crianças.
Pode ser que alguém receba, em parte, já aqui na terra a recompensa de seu trabalho na messe do Senhor, como uma pessoa das nossas paróquias que viveu em África e teve de voltar a Portugal na época das guerras de descolonização. Durante uma rusga das guerrilhas, viram-se aflitos pois começaram a fazer das suas diabruras para provocá-los e estavam mesmo em risco de vida, quando um dos adolescentes armados reconheceu que a senhora tinha sido sua professora e disse ao comandante da rusga. O comandante perguntou se ela tinha sido boa professora, ao que ele disse que sim. A essa resposta a guerrilha deixou-os em paz. Porém, a principal recompensa não é esta. A melhor e única a que devemos aspirar é aquela que Nosso Senhor nos promete através do profeta Daniel: “Os que tiverem sido sensatos resplandecerão como a luminosidade do firmamento, e os que tiverem levado muitos aos caminhos da justiça brilharão como estrelas com um esplendor eterno.” (Daniel 12,3) Já aceitaste alguma vez na vida o desafio a ser catequista?
Pe. Marcelo