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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

JESUS E AS NOSSAS DOENÇAS

Há três domingos que as leituras do Evangelho vem sendo uma sequência de versículos de Marcos capítulo 1.  No Domingo passado vemos Jesus desmascarando e expulsando aquele que é a origem do mal no mundo, aquele que é perverso e perversor: o demônio.
Assim como uma dona de casa, quando vai fazer uma boa faxina, não tira somente as aranhas, mas também as teias que essas aranhas fizeram, Jesus é Aquele que vem reparar a glória de Seu Pai, ultrajada pelo pecado de Adão e, para isso, expulsa o demónio, mas também tira as teias do pecado e suas consequências.
São Beda, comentando essa passagem da cura da sogra de Pedro diz: “Primeiro deveria o Senhor tapar a boca da serpente, para que não espalhasse mais veneno. Depois curou a mulher que foi seduzida antes da concupiscência carnal. Por isso disse: “Jesus saiu da sinagoga e logo foi à casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama com febre, e logo contaram a Jesus”.  O Santos Padres viam na febre da sogra de Pedro, um símbolo da concupiscência carnal que ficou no ser humano, fruto do pecado original. Jesus, tocando a sogra de Pedro, de novo a equilibra interiormente e a capacita para o serviço no amor.
O pecado original teve como uma de suas consequências, os males físicos. De dois modos Jesus trata esses males: O primeiro é curando-os na Sua Infinita Misericórdia; o segundo é fazendo com que o sofrimento dos seus fiéis contribua para o bem espiritual deles ou de outros, como diz São Paulo quando afirma que tudo concorre para o bem dos que amam a Deus. (Cf. Rom 8,28)
A Igreja sempre percebeu isso, e viu, no cuidado com os enfermos, uma de suas mais importantes obrigações, aliviando-os de modo natural pelos cuidados, ou sobrenatural, pelos sacramentos e preces. Assim, vemos toda a tradição de médicos que se santificaram no exercício de sua profissão como São Lucas Evangelista, São Cosme e São Damião, Santa Giana Bereta Molla entre muitos outros; fundadores de ordens dedicadas ao cuidado dos doentes como São João de Deus, que fundou hospitais psiquiátricos, São Camilo de Lélis, fundador dos padres e irmãos Camilianos e, atualmente, muitos fundadores de casas para a recuperação de viciados em drogas.  Tal era, em São Camilo, a consciência de que o Cristo estava no doente e que deveria assisti-lo aí, que chegou a dizer que se chegasse, porventura, o dia em que não tivermos mais nenhum doente para nele servirmos o Cristo, teríamos de ir ao cemitério e ressuscitar algum dos mortos para isso.
 Verdadeiramente, como vemos no Evangelho de hoje, a enfermidade pode ser um momento muito privilegiado para o encontro com Cristo que quer nos curar no corpo e na alma, sarando em nós, o pecado e suas consequências.
O salmo de hoje é claro: “O Senhor Deus é o amparo dos humildes, mas dobra até o chão os que são ímpios” (Salmo 146). Ora, em que momento nos tornamos mais conscientes de nossa pequenez do que na enfermidade?  Por isso a Igreja sempre esteve presente nos hospitais, asilos para idosos, tantas casas de recuperação de drogados, e mesmo, fundando muitos deles com pessoas vocacionadas para isso. É uma grande obrigação dos sacerdotes, a visita e a ministração dos sacramentos aos doentes. Para isso existem, também os ministros extraordinários da comunhão Eucarística, a pastoral da saúde...
Tendo em vista tudo isso, vemos como a Igreja sempre teve apresso pela profissão médica, vendo nela um dos cumprimentos do mandato do Salvador: “Estive doente e fostes me visitar”.
Não obstante isso, não podemos deixar, com muito pesar, de nos referir também, aqui, a certos abusos no exercício da medicina que vemos nos dias de hoje. A enfermidade , que colabora para o crescimento da humildade do ser humanos e a reaproximação de Deus, pode, infelizmente, contribuir também para o endurecimento do coração e a revolta contra o Criador e os seus desígnios. Como?  
Quando a medicina é usada não para preservar e restaurar a saúde, mas para manipular a vida. Lembramos as eutanásias, lembramos o congelamento de embriões humanos e o descarte dos mesmos nas fecundações em vitro; lembramos os métodos anticoncepcionais artificiais que geram abortos; lembramos as esterilizações em massa que se praticam nos dias de hoje. Estas últimas levam muitas pessoas, não a equilibrar as suas paixões e a canalizá-las ao reto uso da sexualidade, mas para tornar o uso do sexo algo “barato”, que acaba por levar à desordem moral, e, consequente, ao enfraquecimento das instituição familiar.
Estamos perto do carnaval. Quantas pessoas, nesses dias, por causa do avanço da medicina, vão tratar os seus corpos com depravação, achando que não pegarão nenhuma doença, ou que não engravidarão. Mesmo que isso não aconteça, o que de fato acontece, pois esses métodos são falhos, como ficarão as suas almas? Certamente mais entregues àquele antigo inimigo do qual Jesus veio nos libertar: o demônio.
Que Nosso Senhor nos conceda santos médicos, santos sacerdotes, santos agentes de pastoral da saúde, bons vizinhos dos enfermos, para que estes recuperem a saúde não só do corpo, que um dia perecerá, mas também da alma, pela qual Jesus se ofereceu na Cruz.
Dentro de instantes, o mesmo Jesus que curou os doentes estará conosco na Eucaristia, para tocar também misericordiosamente o nosso corpo, pois também ele está destinado à felicidade eterna juntamente com a nossa alma. Que Nosso Senhor aumente a nossa fé e que possamos receber a Eucaristia sempre com maior fruto.

Para partilhar: O que posso fazer a mais por Jesus presente em cada enfermo?

Pe. Marcelo

domingo, 28 de janeiro de 2018

A PALAVRA QUE CONSOLA E ILUMINA AS TREVAS

Tanto a segunda leitura, como o Evangelho deste domingo são sequenciados com relação ao domingo passado; este, do Evangelho de São Marcos e aquela, da primeira Carta aos Coríntios. Assim, vale a pena recordar a última frase do Apóstolo Paulo da segunda leitura do domingo passado. São Paulo dizia: “A figura deste mundo passa.”
Esta mesma ideia perpassa a leitura deste dia. Quem quiser ter a clareza do que está no coração de Deus sobre o chamado a constituir uma família ou ser um celibatário por amor ao Senhor e ao seu Reino, deve ler e meditar o capítulo sete da Primeira Carta aos Coríntios.
Seja o matrimônio, seja a vida consagrada celibatária, para São Paulo, derivam de um mesmo chamado: a vocação celeste. Quem abraça o matrimônio deveria fazê-lo não porque lhe é mais cômodo, mas em vista de um carisma. São Paulo vai dizer claramente que preferiria que todos fossem como ele(celibatário), mas que cada um tem o seu “dom” ou “carisma” (Cf. 1 Cor 7, 7).
Quem quer, porém, ouvir a voz de Deus em sua vocação??? Moisés, na primeira leitura, diz claramente que o povo não queria ouvir a voz do Senhor a lhe falar diretamente, de forma que Deus promete um Profeta que falará de forma humana ao povo. Este profeta é o próprio Cristo.
O Cristo é a própria Palavra de Deus que, ouvida em Cafarnaum, que significa “local do consolo”, expulsa o espírito maligno.
Esse espírito maligno estava em um lugar meio estranho... num lugar onde não era de se esperar que ele estivesse: a sinagoga. Deveria ser um local de tranquilidade, de escuta da Palavra e da vontade de Deus. No entanto, baseado em outros textos, podemos dizer que um espírito mundano pairava no senso religioso do povo de Israel e até mesmo nos próprios Apóstolos antes de Pentecostes. Quando Jesus multiplicou os pães, o povo o queria fazer rei. Quando começou a falar do Pão Novo que dava a vida eterna, Nosso Senhor perdeu discípulos.
Mesmo depois que Nosso Senhor Morreu na Cruz e ressuscitou, os próprios Apóstolos perguntaram ao Senhor: “É agora que ides restaurar o Reino de Israel?”  Pão material, reino humano...
Não é o que constatamos hoje, infelizmente, em muitos cristãos? Buscam a bênção de Deus e não o Deus da bênção... Paga-se o dízimo porque deseja-se uma retribuição material imediata.  Faz-se novena para conseguir um namorado. Conseguido o namorado, não tenho mais tempo para o Senhor e para a Eucaristia. Faz-se novena para passar na faculdade. Entrando na faculdade, em vez de inflamar com o fogo da fé e do amor de Deus o ambiente universitário, se deixa a fé. Faz-se um ECC (Encontro de casais com Cristo) para restaurar a harmonia conjugal abalada. Conseguido isso, não se vai à Santa Missa nem se faz apostolado...
Uma religião intramundana e utilitarista...
Não é essa que São Paulo nos propõe. O Cristo, no “local da consolação” que é o que significa o nome “Cafarnaum”, quer ter um encontro pessoal conosco, pois foi também lá, que ele fez o seu discurso do Pão da vida. Foi lá, na cidade de Pedro, na mesma sinagoga em que ele expulsou esse demônio, que ele disse: “Eu sou o Pão vivo descido do Céu, quem comer deste pão viverá eternamente”. Que o Pão Vivo que é Cristo, que receberemos em instantes, nos leve  a não ter medo de escutar a voz de Deus a nosso respeito, como o Povo de Israel, e seja qual for o serviço ou o local em que a Divina Providência nos colocar, estejamos lá para buscar o “único necessário”: o Reino que não é daqui, mas que, a partir do coração reconciliado e inabitado pela Trindade, já começa aqui na prática do amor ao próximo.
Para partilhar: Nós buscamos a “bênção” de Deus ou o Deus da bênção. Qual a diferença?
Pe. Marcelo

sábado, 13 de janeiro de 2018

Ser de Deus pelo santo Batismo

Na última segunda-feira, celebramos, com alegria, a Festa do Baptismo do Senhor. No ano do laicato que estamos vivendo, quão importante é renovarmos  a graça deste Sacramento. Quando foi batizado, Nosso Senhor consagrou as águas para que possam servir ao Baptismo de todos os fiéis. Por causa desta graça, São Paulo nos diz na segunda leitura: “Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, porque o recebestes de Deus, e que vós já não vos pertenceis?” (1 Cor 6,19) Nós pertencemos a Jesus pelo Baptismo. Como diz São Paulo: “Fostes comprados por um alto preço! Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo.” (1Cor 6,20)
Nós não somos só animais. Nem mesmo, apenas, animais racionais. Fomos elevados por Cristo. Poderíamos fazer uma escadinha dos seres existentes em dignidade: O mais baixo seriam os demônios, depois dos réprobos, que ofendem a Deus sempre... depois os minerais, os vegetais, os animais irracionais, os seres humanos não batizados, os seres humanos batizados, as almas do purgatório, os santos no Céu, os anjos bons, por fim, como o ser mais elevado e excelso, abaixo Santíssima Trindade , a  Santíssima Virgem Maria.  São Paulo, na segunda leitura, exorta os Coríntios, que já tinham subido elevados por Cristo no Santo Batismo, a viverem não como os pagãos não batizados, mas de acordo com a dignidade de filhos de Deus. Ele chama de fornicação, à união de dois batizados sem o sacramento do Matrimônio.
 Para alguns, esta distinção não parece tão clara. Nesses dias, depois de fazer, cinco santificações matrimoniais de casais que viviam juntos, no dia seguinte fui batizar uma menina de uns dois anos de idade. Que dificuldade! A Jarra com a água benta parecia que aterrorizava aquela menina que gritava e se contorcia para todos os lados.. Depois do Batismo, que anjinho!!! Super tranquila...
 Muitos casais parece que padecem de algo semelhante . Parece que a aliança conjugal é um terror e preferem ficar amigados. Ainda não perceberam que a família é, antes de tudo, um vínculo espiritual, e só depois um vínculo carnal.  É um vínculo espiritual, não só pela presença da Graça do Espírito Santo, mas também pela virtude que se conquista pelo dom sincero de si mesmo aos outros. Não sei se já fostes em algum funeral onde há uma pessoa desesperada que grita: “E agora, o que será de mim sem você... “ Dá vontade de rir para não chorar. Aquela pessoa não está minimamente preocupada com a alma da pessoa que acabou de partir, se ela está no purgatório, se precisa de oração, ... pensa só em si e no que aquela pessoa poderia fazer por ela...  Não deu o passo do dom sincero de si mesmo que é necessário em toda vocação. Não cresceu no dom de si. Permaneceu egoísta.
Como superar este impasse e esta indecisão diante da própria vocação? A solução e´ assumi-la como ela é de verdade: um chamado de Deus. Se a vocação matrimonial é um chamado a “morar junto”, daí a palavra “casamento”, na mesma casa, também a vocação consagrada é um chamado a morar, já agora, com o Senhor. Foi assim com Samuel, na primeira leitura, foi assim com Pedro e André no Evangelho: “Mestre, onde moras? Vinde e vede”.
Se todos as nossas vocações começassem na oração, seria muito mais fácil a decisão. Me lembro o testemunho de minha mãe que, embora respeitando e estimando a vocação consagrada, sentia que não era a dela. Assim, rezava sempre três vezes a Ave-Maria, antes de dormir, pedindo duas graças por intercessão de Nossa Senhora: a que fossem afastado dela os rapazes que só queriam se aproveitar, e que o Senhor reservasse uma pessoa boa para que ela se casasse. Aconteceu que meu pai ficou amigo de um de meus tios, pois estudava contabilidade com ele e calhou de o convidar para passar as férias no Espírito Santo. Minha mãe, que também trabalhava no Rio, naquela época, também tirou férias no mesmo mês. Assim, ela achou o marido dela na casa de sua mãe... Não precisou ir a “forró” nenhum para isso...
Já que aquela união foi santificada por um sacramento, o quarto de um casal unido em Matrimônio passa a ser um “santuário da Vida” como se expressou o Papa João Paulo II referindo-se à sacralidade da Família.
Foi, curiosamente, também no leito conjugal de meus pais (pois, na época, era o único cômodo fora o banheiro que tinha porta lá em casa)   que também o Senhor quis comunicar-me, de forma mais clara,  o meu chamado vocacional. Recordo-me da circunstância: Estava na época cursando a escola secundária da Aeronáutica ( EPCAR), e já me tinha questionado algumas vezes sobre a vocação sacerdotal, mesmo já tendo namorado. Certo dia, quando no quarto de meus pais, procurava um local mais tranquilo e isolado para orar com a porta fechada, escutei no meu interior claramente a seguinte passagem da Bíblia: Isaias 54. Quando abri a Bíblia, até pelo local onde estava, a cama de casal de meus pais, o convite não poderia ser mais claro e sedutor. Trazendo  para o masculino seria: “os filhos do não casado serão mais numerosos do que a do casado”. (Cf Is 54,1) Ou seja, na cama de casal de meus pais o Senhor me fazia um convite para uma fecundidade maior: a fecundidade de gerar, com a Sua Graça e a ordenação sacerdotal, filhos para o Céu, para a vida eterna, que deveriam ser mais numerosos que os filhos da carne. Meus pais não ficaram sem netos. Tiveram netos físicos pelos meus irmãos, mas tiveram, e se Deus quiser ainda terão muitíssimos, netos espirituais pelo meu ministério. Tenho a certeza que meu pai que o Senhor chamou a si há seis anos atrás, se alegra muito, no Céu, com o meu chamado ao sacerdócio; ou pelo menos tem misericórdia de mim e me ajuda com sua intercessão.
Seja qual for o nosso chamado: à vida matrimonial, celibatária, consagrada ou não, ao Sacerdócio, o que importa, mesmo, é ser do Senhor; é viver a vocação como um chamado ao Amor.  O importante, seja qual for a nossa vocação é ser de Deus, radicalmente de Deus.
 Cada um, especialmente os jovens, devem, buscando a sua vocação, dizer como no Salmo de hoje: “Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade” (Salmo 39)
 Para São Vicente Pallotti, a graça da vocação de cada um era algo importantíssimo e deveria ser valorizado e cultivado. Como Maria Santíssima foi a pessoa humana que melhor correspondeu ao chamado do Senhor, São Vicente Pallotti escreveu em nome de Nossa Senhora no seu livro para o Mês de Maio: “Tendes duvida da vossa vocação…? Não vos perturbeis, ó meus filhos! Chegou o momento em que não tereis mais coragem de resistir à voz de Deus, Pai das misericórdias. Dai-me o coração rebelde, desprendei-o de todo o laço terreno que vos levou até o presente, a resistir à graça e vos impediu de vos entregardes totalmente a Deus… Oferecei ao Eterno Pai o Sangue Divino do Seu Filho… Recorrei a mim e eu, como Mãe de Misericórdia, tratarei da vossa causa e sereis consolados.” (OO CC XIII, 467-468)

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Em que ocasião da vida experimentaste de forma mais forte o que o Apóstolo Paulo escreveu: “Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, porque o recebestes de Deus, e que vós já não vos pertenceis?”  Algum movimento da Igreja ajudou-o nesta descoberta?

Pe. Marcelo Nespoli SAC 

sábado, 6 de janeiro de 2018

EPIFANIA DO SENHOR

Em alguns lugares ou círculos de amizade, pensa-se que a fé cristã é coisa de mentes pobres e ingênuas; de pessoas que, por não encontrar nas próprias forças caminho de aperfeiçoamento, o buscam no sobrenatural. Os Reis Magos do Evangelho são uma resposta para essas mentes soberbas.
Os pastores foram até à gruta de Belém por conta de uma revelação extraordinária dos anjos. Já os Reis Magos chegaram à gruta de Belém através da Revelação do Antigo Testamento (Fé) e da observação dos fenômenos naturais, no caso a estrela (Razão). Fé e razão: as duas asas do espírito humano de que tanto fala o Papa São João Paulo II na sua encíclica “Fides et Ratio”.
Assim como eles, muitos outros souberam voar alto com essas duas asas dadas por Deus ao ser humano. Vejamos alguns deles:
Conta-se na Biografia do pesquisador Francês Pasteur:
"Um jovem universitário entrara num compartimento do trem e sentou-se ao lado dum homem de idade. Entre as mãos deste deslizavam as contas dum grande rosário e o seu rosto refletia a devoção intensa com que rezava. Intrigado, o jovem exclamou: O senhor parece que ainda acredita nessas velharias!?. . .
 Sim. E tu, não?
O estudante soltou uma estrepitosa gargalhada e respondeu:
 Eu? Se o senhor quiser seguir o meu conselho, atire esse terço pela janela e aprenda o que diz a nova ciência.
A nova ciência?... Fez o velho com espanto. Não consigo compreender essa ciência. Talvez tu me pudesses ajudar.
 Dê-me a sua direção, acrescentou o rapaz cheio de importância, e eu lhe enviarei alguns livros que o podem ilustrar.
O homem tirou do bolso um cartão de visitas e entregou-o ao rapaz. Liam-se nele estas palavras: Louis Pasteur, Instituto de Pesquisas Científicas, Paris.
O jovem universitário baixou a cabeça e não teve coragem de dizer uma só palavra. Agora sabia em frente de quem estava.
O fato acima, descrito na biografia de Pasteur, teria ocorrido em 1892."

Vida e Obra de Louis Pasteur (Autoria desconhecida).

É dele a célebre frase: “Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima."
(Louis Pasteur) (http://www.sitequente.com/frases/ciencia.html)

Esta frase de Pasteur parece confirmar-se por outros célebres cientistas:
 “A probabilidade de ter-se a vida originado por acaso é comparável à probabilidade de um dicionário completo resultar da explosão de uma tipografia”. (O Dr. Edward Cooling, biólogo americano)
Max Planck (1858-1947), prêmio Nobel de Física: “O impulso de nosso conhecimento exige que se relacione a ordem do universo com Deus”.
Albert Einstein (1879-1955), Nobel de Física em 1921: “Quanto mais acredito na ciência, mais acredito em Deus”. “O universo é inexplicável sem Deus”.
Guglielmo Marcone, inventor da comunicação sem fios, Prêmio Nobel de 1909: “Declaro com ufania que sou homem de fé. Creio no poder da oração. Creio nisto, não só como fiel cristão, mas também como cientista”.
Voltaire (1694-1778), racionalista e inimigo sagaz da fé católica, foi obrigado a dizer: “O mundo me perturba e não posso imaginar que este relógio funcione e não tenha tido relojoeiro”.
Todos estes cientistas, podemos dizer, são como os vários Reis Magos ao longo dos séculos. Os magos do oriente que, a um sinal visto na natureza, uma estrela diferente, vieram adorar o Rei Menino que acabava de nascer, no colo de Maria, são o prenúncio de homens de boa vontade de todos os povos da terra, que buscam a Deus com sinceridade de coração e que não são cegos aos sinais que o próprio Criador colocou neles mesmos e na natureza. Essas pessoas, se são dóceis, são conduzidas, pelos sinais de Deus na natureza, pelo testemunho das Escrituras  e dos cristãos, à gruta de Belém, onde encontram o Deus Menino, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós.
Já dizia São Paulo: ““Porquanto, o que de Deus se pode conhecer está à vista deles, já que Deus lho manifestou. 20Com efeito, o que é invisível nele - o seu eterno poder e divindade - tornou-se visível à inteligência, desde a criação do mundo, nas suas obras. Por isso, não se podem desculpar.” (Romanos 1,19)
Na pessoa dos Reis Magos, vemos um também um prenúncio da Igreja, que é formada por povos de toda a terra e de todas as culturas, que adoram o Deus verdadeiro e ao seu Filho Jesus Cristo no Espírito Santo. Este culto dos magos foi bem concreto, e expressa também o nosso culto cristão quando é “em verdade”.
 Os magos trouxeram ouro ao Deus Menino. Se aquele menino é o Criador do universo, a ele pertence a realeza. Por isso, em sinal de gratidão pelas riquezas que Dele receberam, os magos trouxeram ouro. Provavelmente este ouro foi providencial para São José. Provavelmente, com este, ele comprou ferramentas e construiu uma casa para a Sagrada Família obrigada a deixar tudo e emigrar às pressas para o Egito. Jesus não precisa, pois ele é Rei de tudo, mas os pobres e a evangelização precisam ainda hoje da nossa colaboração e ajuda espontânea como gratidão por tudo o que de Deus recebemos.
Os magos ofereceram incenso, símbolo do culto de adoração devido a Deus. Deus igualmente, não precisa dos nossos louvores, mas o poder louvá-lo, nada acrescentando à sua glória, contribui para a nossa salvação.
Enfim eles ofereceram mirra, símbolo daquele que sendo impassível, tornou-se passível para sofrer por nós na cruz para a remissão dos nossos pecados. Em Fátima nossa Senhora ensinou aos pastorinhos a oferecerem a gota do seu sofrimento em união com o oceano do sofrimento de Cristo para a salvação do mundo: “Sacrificai-vos pelos pecadores, e dizei muitas vezes, em especial sempre que fizerdes algum sacrifício:  “Oh Senhor, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores e pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria.”
Sejamos como os magos do oriente: guiados pela luz de Deus na natureza e nas Escrituras, cheguemos ao menino Jesus e lhe prestemos um culto em espírito e verdade.
Para partilhar em grupo:
Como se concretiza, hoje em dia, a frase de Pascal: “Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima." Pessoas simples e aparentemente sem muita instrução podem também chegar a uma grande sabedoria Divina? Como?


Pe. Marcelo Nespoli

sábado, 10 de outubro de 2015

NÃO SÓ SALVOS, MAS SANTOS

Na Próxima segunda-feira comemoraremos a festa de nossa Padroeira, Nossa Senhora Aparecida. Estamos, porém, assistindo algo inédito na história do nosso País, e, talvez do mundo inteiro.  Já ouvimos falar de políticos que foram vaiados, mas  governantes que foram xingados em estádios de futebol, isso é inédito. Sempre guardou-se um certo respeito pelas autoridades. Mas diante de tantos escândalos de corrupção, parece que a panela de pressão explodiu. A válvula não consegue mais dar conta da pressão. Mas diante desse quadro, podemos ter um posicionamento que o Evangelho de hoje denuncia.
 Pode acontecer que nos achemos até muito bons. Se o nosso termo de comparação são os corruptos, os mensalões, os petrolões, os que propagam o casamento gay, podemos achar que somos até bem “bonzinhos”. Não mato, não roubo...  Diante disso tudo podemos ir até Jesus com as motivações do jovem rico do Evangelho, que até, a princípio, eram boas. “«Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» (Mc 10,17) Motivação válida, sem dúvida. A salvação da própria alma não é negócio de pouca importância. “Jesus disse: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus. Sabes os mandamentos: Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes, honra teu pai e tua mãe”. (Mc 10,18 s) Jesus não pergunta se ele conhecia os mandamentos, mas afirma-o – “Sabes os mandamentos”-, porque desde toda a eternidade já o conhecia.
“Ele respondeu: «Mestre, tenho cumprido tudo isso desde a minha juventude”. Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele e disse: «Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me”. (Mc 10,20) O Evangelho diz que Jesus olhou para ele com amor, com simpatia e faz-lhe um chamamento. Chamamento, vocação, é o olhar amoroso de Jesus para cada um de nós. “Se queres ser perfeito,.....” Esta é a nossa vocação. São Paulo vai falar sobre ela na carta aos Efésios: “Foi assim que Ele nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis na sua presença, no amor”. (Efésios 1,4) Ou seja, Jesus Nosso Senhor revelou a esse jovem a sua alta vocação.
No entanto ele saiu triste porque possuía muitos bens.
Tristeza é o sentimento recorrente no coração de cada ser humano quando ele não corresponde à sua  vocação.
Com esta atitude, vemos que, na verdade, este jovem não observava realmente todos os mandamentos. Não observava logo o primeiro: “Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças”. (Mc 12,29-30)
Na verdade a avareza não era  nem mesmo o seu maior pecado, mas sim o orgulho e a impiedade. Se ele, como Pedro, tivesse admitido as suas debilidades e pedido a graça da conversão, Nosso Senhor teria lhe dado, certamente, uma graça atual e ele seria o décimo terceiro Apóstolo. Pedro, humildemente, certa vez, disse: “«Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador”. (Lc 5,8) Ao que Nosso Senhor respondeu: “«Não tenhas receio; de futuro, serás pescador de homens”. (Lc 5,10)   Se ele tivesse dito: “- Senhor, bem conheces a minha fraqueza, meu apego a meus bens. Tende piedade de mim e dá-me a graça de me desapegar de tudo aquilo que me impede de abraçar a minha vocação...”. Certamente Nosso Senhor o teria atendido.
Com isso compreendemos as palavras de Nosso Senhor, a seguir, quando respondeu  à perplexidade dos Apóstolos: “Então quem pode salvar-se? Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível”... Ou nas Palavras de São Padre Pio: “Quem reza se salva, quem não reza se condena”. Visto  que “... é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie”. (Ef 2,8)
Vale a pena rezar e dedicar-se a essa empresa que é a maior de todas: a salvação das almas. Estamos, neste ano de 2015 a recordar os 500 anos do nascimento de Santa Tereza de Jesus. Quando criança ela falava ao irmãozinho e o irmãozinho a ela: “Há o Céu... e é para sempre, para sempre, para sempre.... Há o inferno, e é para sempre, para sempre , para sempre...”  Mais tarde, já monja ela diria: “Estou disposta a dar mil vidas pela salvação de uma  única alma”.  Se fizermos as contas, dizia um padre comentador, mil vidas seriam no máximo cem mil anos. O que é cem mil anos na eternidade de uma única alma? Nada... Só os nossos foceis pré-históricos que temos em alguns museus tem 130 milhões de anos.
Diante da negativa do jovem rico, Pedro toma a voz dos doze e pergunta: “ «Aqui estamos nós que deixámos tudo e te seguimos.» Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: quem deixar casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, no tempo presente, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, juntamente com perseguições, e, no tempo futuro, a vida eterna”. Cem vezes mais e a vida eterna.... por exemplo: um seminarista que, impulsionado pela graça, com reta intensão renuncia a um emprego ou ao matrimônio  para servir a Cristo na vida consagrada ou no sacerdócio verá o seu instinto paternal derramar-se sobre muito mais pessoas, e ganha, certamente, muito mais pais , mães, irmãos e irmãs, junto com perseguições e no mundo futuro a vida eterna.
Uma pergunta pode surgir: Este Evangelho, então, pode ser vivido apenas pelos que optam pela vida consagrada e pelos que são muito pobres? A história da Igreja nos responde que não. Existem, muitos reis e rainhas, homens de posses, que usaram seus bens com desprendimento para a glória de Deus e a ajuda dos pobres. Vemos uma Santa Isabel rainha de Portugal que ajudou a construir Igrejas e era pródiga em cuidados com os pobres, até tratando disso pessoalmente...
É licito acumular alguns bens, principalmente se se tem família, quando sua origem é lícita e também a finalidade do uso é reta, ou seja, a glória de Deus, e o bem das pessoas, principalmente dos que lhe são dependentes e dos mais pobres. Quando o meio de aquisição é ilícito e ou a finalidade a que se destina é somente os próprios prazeres, vemos o que estamos assistindo. A desmoralização de autoridades.
É hora de rezarmos a nossa Padroeira pelo Brasil com o terço nas mãos, pedindo que nos livre de ideologias nefastas como o comunismo, a desmoralização das instituições a  que levou o apego a riquezas e ao poder conseguidos ilicitamente. Peçamos a Nossa Senhora que sejamos não somente salvos, mas santos. Conduze o nosso Brasil Virgem Aparecida, como nos dizia São João Paulo II, a uma “medida alta da vida cristã”. Assim seja.
Pe. Marcelo Nespoli SAC

sábado, 22 de setembro de 2012

A “CATEQUESE” DE CRISTO


No Evangelho de hoje vemos Jesus a ter uma “catequese” particular com os seus discípulos: “Partindo dali, atravessaram a Galileia, e Jesus não queria que ninguém o soubesse, porque ia instruindo os seus discípulos.” (Mc 9,30-31)  Ensina-lhes o caminho do amor que passa pela cruz: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens que o hão-de matar; mas, três dias depois de ser morto, ressuscitará.” Jesus, como bom pedagogo fortalecia os seus discípulos alertando dos sofrimentos do Seu caminho.
A Igreja, como mãe e mestra nos vem também alertar, na presente liturgia, dos combates que Cristo viveu e também o cristão é chamado a travar.
Na primeira leitura alerta-nos das perseguições do mundo: “Armemos laços ao justo porque nos incomoda, e se opõe à nossa forma de actuar. Censura-nos as transgressões da Lei, acusa-nos de sermos infiéis à nossa educação. Ele afirma ter o conhecimento de Deus e chama-se a si mesmo filho do Senhor!  Ele tornou-se uma viva censura para os nossos pensamentos; só o acto de o vermos nos incomoda,…” (Sabedoria 2,12-14)
Na segunda leitura, vemos aquele que é talvez o pior combate, pois trata-se de “inimigos domésticos”, em nós mesmos: “De onde vêm as guerras e as lutas que há entre vós? Não vêm precisamente das vossas paixões que se servem dos vossos membros para fazer a guerra? Cobiçais, e nada tendes? Então, matais! Roeis-vos de inveja, e nada podeis conseguir? Então, lutais e guerreais-vos!” (Tg 4,1-2) Não esqueçamos também aquele que quer instigar tais tendências que é o maligno. Eis ai o tríplice combate do Cristão: o mundo, a carne e o demónio. Mas não desanimemos, pois Nosso Senhor nos garante através de São Paulo: “Não vos surpreendeu nenhuma tentação que tivesse ultrapassado a medida humana. Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças, mas, com a tentação, vos dará os meios de sair dela e a força para a suportar.” (1 Cor 10,13) O que precisamos é clamar como no Salmo de hoje: “Mas o Senhor é o meu amparo, Ele me protege a vida.”  Será que uma das falhas pedagógicas mais crassas do nosso tempo, não tem sido prometermos aos nossos educandos um “mar de rosas”? Santo Agostinho falando aos pastores, exorta-os a não ser assim. Citando a Escritura ele disse: “Todos os que quiserem viver piedosamente em Cristo sofrerão perseguições”, e por tua conta vais dizendo: -‘Se viveres piedosamente em Cristo terás tudo em abundância. E se não tens filhos hás de tê-los e poderás alimentá-los com abundância sem que nenhum deles te morra’. É este o teu processo de construir? Repara no que fazes e onde constróis.  Estás a construir sobre a areia. Virão as chuvas, transbordarão os rios, soprarão os ventos e investirão sobre esta casa, e ela cairá e será grande a sua ruína. Retira da areia tua construção, edifica sobre a pedra; quem deseja ser cristão, tenha o seu fundamento em Cristo. Considere os sofrimentos humilhantes de Cristo; olhe para Aquele que sem pecado pagou o que não devia…”
Estamos para iniciar o ano da Fé. Deve ser assim também um ano catequético, pois é o aprofundamento da fé. Jesus nos garante no Evangelho de hoje: “Quem receber um destes meninos em meu nome é a mim que recebe; e quem me receber, não me recebe a mim mas àquele que me enviou.»” (Mc 9,36) Precisamos de mais pessoas corajosas que queiram ensinar a fé e os mandamentos de Deus às nossas crianças.
Pode ser que alguém receba, em parte, já aqui na terra a recompensa de seu trabalho na messe do Senhor, como uma pessoa das nossas paróquias que viveu em África e teve de voltar a Portugal na época das guerras de descolonização. Durante uma rusga das guerrilhas, viram-se aflitos pois começaram a fazer das suas diabruras para provocá-los e estavam mesmo em risco de vida, quando um dos adolescentes armados reconheceu que a senhora tinha sido sua professora e disse ao comandante da rusga. O comandante perguntou se ela tinha sido boa professora, ao que ele disse que sim. A essa resposta a guerrilha deixou-os em paz. Porém, a principal recompensa não é esta. A melhor e única a que devemos aspirar é aquela que Nosso Senhor nos promete através do profeta Daniel: “Os que tiverem sido sensatos resplandecerão como a luminosidade do firmamento, e os que tiverem levado muitos aos caminhos da justiça brilharão como estrelas com um esplendor eterno.” (Daniel 12,3) Já aceitaste alguma vez na vida o desafio a ser catequista?
Pe. Marcelo

quarta-feira, 27 de junho de 2012

SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO


Certa vez, fui abordado per dois jovens missionários de uma seita. Quis dialogar com eles para perceber os fundamentos de sua fé e ver o que tínhamos em comum. Em determinado ponto da conversa, perguntei como ele tinha certeza de sua fé. A resposta não poderia ser mais subjetivista e volúvel: - “Ah, eu senti que era assim!”
Sobre estas pessoas fala o Catecismo: “Os que hoje nascem em comunidades provenientes de tais rupturas, «e que vivem a fé de Cristo, não podem ser acusados do pecado da divisão. A Igreja Católica abraça-os com respeito e caridade fraterna [...]. Justificados pela fé recebida no Baptismo, incorporados em Cristo, é a justo título que se honram com o nome de cristãos e os filhos da Igreja Católica reconhecem-nos legitimamente como irmãos no Senhor»  .Além disso, existem fora das fronteiras visíveis da Igreja Católica, «muitos elementos de santificação e de verdade: «a Palavra de Deus escrita, a vida da graça, a fé, a esperança e a caridade, outros dons interiores do Espírito Santo e outros elementos visíveis» . O Espírito de Cristo serve-Se destas Igrejas e comunidades eclesiais como meios de salvação, cuja força vem da plenitude da graça e da verdade que Cristo confiou à Igreja Católica. Todos estes bens provêm de Cristo e a Ele conduzem e por si mesmos reclamam «a unidade católica.” (Catecismo nº 818 e 819)
Comemoramos hoje os Santos Apóstolos Pedro e Paulo.  Fazendo a memória desses Apóstolos, mergulhamos fundo no Mistério da Igreja. Sim pois de uma vez por todas a pessoa de Simão Pedro ficou unida à Igreja quando Jesus lhe disse: “Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu.” (Mt 16,18-19)
O encontro verdadeiro com Cristo, pode até preceder o encontro com a Igreja, mas deve conduzir a esta. Dizia o Papa Bento XVI: “A história mostra-nos que se alcança normalmente Jesus através da Igreja! Num certo sentido, isto verificou-se, também para Paulo, o qual encontrou a Igreja antes de encontrar Jesus.
Mas este contato, no seu caso, foi contraproducente. Não causou a adesão, mas uma violenta repulsa. Para Paulo, a adesão à Igreja foi propiciada por uma intervenção direta de Cristo, o qual, tendo-se-lhe revelado no caminho de Damasco, se identificou com a Igreja e lhe fez compreender que perseguir a Igreja era perseguir o Senhor. De fato, o Ressuscitado disse a Paulo, o perseguidor da Igreja: "Saulo, Saulo, porque me persegues?" (Act 9, 4). Perseguindo a Igreja, perseguia Cristo. Então Paulo converteu-se, ao mesmo tempo, a Cristo e à Igreja. Disto compreende-se, depois, porque a Igreja tenha estado tão presente nos pensamentos, no coração e na atividade de Paulo.” E que: “Ele mesmo o reconhece nas suas Cartas (1 Cor 15, 9; Gl 1, 13; Fl 3, 6): "Persegui a Igreja de Deus" ; escreve, quase como a apresentar este seu comportamento como o pior dos crimes.”
Na segunda leitura vemos que mesmo o grande Apóstolo São Paulo, depois de se apoiar na única rocha que é Cristo, através da oração retirada e das revelações particulares que recebeu, quis também apoiar -se na rocha visível que Cristo deixou no meio de nós como garantia de estarmos na verdade: “Mas, quando aprouve a Deus - que me escolheu desde o seio de minha mãe e me chamou pela sua graça - revelar o seu Filho em mim, para que o anuncie como Evangelho entre os gentios, não fui logo consultar criatura humana alguma, nem subi a Jerusalém para ir ter com os que se tornaram Apóstolos antes de mim. Parti, sim, para a Arábia e voltei outra vez a Damasco. A seguir, passados três anos, subi a Jerusalém, para conhecer a Cefas, e fiquei com ele durante quinze dias.” (Gl1,15-19)  Além disso, depois de anos de ministério, quis voltar a conferir o seu Evangelho com o de Pedro para não correr o risco de correr ou ter corrido em vão. É a obediência que é a marca dos grandes servos de Deus. Obediência primeiro a Cristo, e depois também àqueles que Cristo deixou como seus representantes visíveis neste mundo. “A seguir, catorze anos depois, subi outra vez a Jerusalém, com Barnabé, levando comigo também Tito. Mas subi devido a uma revelação. E pus à apreciação deles - e, em privado, à dos mais considerados - o Evangelho que prego entre os gentios, não esteja eu a correr ou tenha corrido em vão.” (Gl 2,1-2)
Se até o grande Apóstolo Paulo sentiu a necessidade de conferir o que ensinava com a fé dos Apóstolos e em especial à de Pedro, quem somos nós para fazermos diferente? Corremos um grande risco, assim de nos afastarmos da verdade.
No dia de hoje queremos apresentar à Santíssima Trindade um grande louvor, pelo ministério de Pedro e seus sucessores, assim como os bispos, sucessores dos Apóstolos que nos conservam na certeza de estar na unidade da Igreja de Cristo. E se algumas vezes a vida de algum deles não foi uma imagem clara do Evangelho que pregavam, isso deve suscitar em nós um renovado espírito de conversão, pois sendo a Igreja um Corpo, a nossa vida em Cristo não é indiferente ao bem de toda a Igreja.
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Já tivestes dúvida de pertencer à verdadeira Igreja de Cristo? Como tiraste tal dúvida?
Pe. Marcelo

sábado, 11 de fevereiro de 2012

JESUS: AQUELE QUE NOS CURA E LIBERTA

“Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo”. (1 Cor 11,1) Ou pela negativa: “Não vos torneis ocasião de escândalo, nem para os judeus, nem para os gregos, nem para a Igreja de Deus.” (1 Cor 10, 32)
Decididamente, Nosso Senhor assim o fez, de modo que o teor da nossa fé e caridade sempre influenciarão naqueles que estão ao nosso redor. Deus fez o progresso de uns depender do progresso dos outros. Usando uma comparação ouvida de um colega padre, estamos como os alpinistas. Normalmente os que fazem tais escaladas se ligam uns aos outros por meio de cordas, de modo que se um cair, os outros podem sustentá-lo. Pois bem, estamos a escalar a grande “montanha da santidade” que é Cristo.
E já que a nossa virtude ou o nosso pecado influenciam nos outros, Nosso Senhor quis que nós recebêssemos também o perdão pelo ministério de um outro irmão. A primeira leitura fala das repercussões sociais da doença da lepra, excluindo a pessoa doente do convívio normal do resto dos homens. Era um direito da sociedade, pois deveria proteger-se de uma epidemia que poderia dizimar a população.  A liturgia dá a entender claramente que a lepra é uma imagem do pecado. Basta vermos o Salmo que a Igreja escolheu: “Feliz aquele a quem é perdoada a culpa e absolvido o pecado.   Feliz o homem a quem o Senhor não acusa de iniquidade e em cujo espírito não há engano.” (Salmo 31,1-2)
Jesus, no Evangelho, não admitiu prontamente o doente de lepra ao convívio social, mas se aproximou dele, tocou-o curou-o e só depois ordenou que ele fizesse um acto público de reinserimento no convívio normal das pessoas: “ …vai, antes, mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que foi estabelecido por Moisés, a fim de lhes servir de testemunho.” (Mc 1,43,44) Jesus não ignorou que a pessoa tinha lepra e o readmitiu pura e simplesmente ao convívio social. Primeiro curou-a com Misericórdia infinita, e depois reintegrou-a na sociedade. Também assim o é no campo moral. São Paulo nos repete: “Não vos torneis ocasião de escândalo, nem para os judeus, nem para os gregos, nem para a Igreja de Deus.” (1 Cor 10, 32)  O que é um escândalo? É um mal exemplo que depois corre o risco de difundir-se se não for corrigido. Hoje em dia vemos um grande escândalo por parte de altas autoridades em Portugal. O querer tornar legal o que é um desvio grave não somente da lei de Deus revelada, mas da própria lei natural. Jesus não quer excluir tais pessoas, mas quer curá-los para os reinserir no convívio normal da sociedade. A Igreja segue o exemplo de Jesus: não exclui, mas também não ignora que tais situações são uma doença e como tais devem ser tratadas e não oficializadas.
 Jesus transgrediu várias leis judaicas, quando elas não estavam em conformidade com a rainha de todas as leis que é a lei da caridade: Por exemplo, tocar em um leproso, curar em dia de Sábado, falar com as mulheres, falar com os  estrangeiros … Porém, não quis alterar esta lei judaica: “…vai, antes, mostrar-te ao sacerdote.” (Mc 1,44) É um sinal de que Cristo quis que isto continuasse na nova ordem estabelecida por Ele.  Assim o Sacramento da Reconciliação continua a ser uma arma poderosíssima em que o homem pecador encontra alívio e reconciliação com Deus, com os outros e consigo mesmo. O leproso do Evangelho não obedeceu a Cristo inteiramente: “ Ele, porém, assim que se retirou, começou a proclamar e a divulgar o sucedido, a ponto de Jesus não poder entrar abertamente numa cidade; ficava fora, em lugares despovoados. E de todas as partes iam ter com Ele”. (Mc 1,45) Resultado: Ele já não podia entrar livremente nas cidades e aldeias. Desobediência! Nosso Senhor continua a dizer a mim e a você que muitas vezes, mais levemente ou mais gravemente somos contaminados pela lepra do pecado: “ …vai, antes, mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que foi estabelecido por Moisés, a fim de lhes servir de testemunho.” (Mc 1,43,44)  Ou seja: “Confessa-te e faz reparação pelas tuas faltas com um firme propósito de emenda”.
Não podemos ser tolos e desobedientes. A santidade da nossa Igreja depende da nossa santidade. O que mereceria alguém que não por acidente, mas de propósito, durante a escalada de uma montanha, amarrado aos companheiros, começasse a brincar soltando-se da pedra só porque estava amarrado aos outros para que eles o sustentassem? Colocaria em risco todo o grupo. Todos poderiam soltar-se da rocha e acabar caindo no precipício.  Não podemos brincar de modo algum de nos soltarmos da Rocha que é Cristo Jesus. Pelo contrário, devemos fincar novos ganchos à “Rocha”, incentivar os irmãos cansados e abatidos, e não incentivá-los a ficar no seu erro. Assim as nossas famílias, as nossas comunidades e pastorais chegarão todos à meta a que Cristo nos destina.
Procuremos fazer de nossas vidas um exemplo para os irmãos como São Paulo que nos diz: “Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo”. (1 Cor 11,1)

Para as células de Evangelização:
1-      A lepra, no tempo de Jesus era assinalada e colocada de parte até que fosse curada e a pessoa se mostrasse ao sacerdote. Nosso Senhor não quis mudar esta lei como sinal de um sacramento da Nova Aliança. Que situações de “lepra moral” tendem a ser  “incluídas” na sociedade sem prévia cura, até por meio de leis, com o perigo de tornarem-se epidemias?
Pe.Marcelo