sábado, 7 de novembro de 2015

O OLHAR DE JESUS

Estamos no mês de Novembro. Neste mês a Santa Igreja aponta-nos como objeto da nossa caridade cristã, de modo especial as almas dos fiéis que já partiram desta vida e se encontam ainda em estado de purgatório. A segunda leitura garante-nos que só temos uma vida aqui na terra:  “E, assim como está determinado que os homens morram uma só vez e depois tenha lugar o julgamento…” (Hebreus 9,27) Este versículo exclui de forma clara a doutrina da reencarnação. Como daqui, não levamos nada a não ser o bem que fazemos com a ajuda da graça de Deus, a liturgia aponta para um outro tema muito importante que é o da generosidade.
Ninguém, diz a segunda leitura, foi mais generoso em oferecerdo que Nosso Senhor Jesus Cristo, pois não ofereceu simplesmente algo, mas a si mesmo, de modo especial dodo o seu sangue precioso: “... assim também Cristo, que se ofereceu uma só vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá uma segunda vez, não já por causa do pecado, mas para dar a salvação àqueles que o esperam”. (Hb 9,28)
 Para que esta copiosa Redenção conseguida por Nosso Senhor produza plenos frutos em nós, e por nós, se faz necessário deixarmo-nos iluminar por este olhar de Cristo, que vindo sobre nós, revela toda a nossa verdade. Revela quem somos e como estamos diante de Deus.
O olhar de Jesus é infinitamente mais poderoso do que qualquer raio X que temos em nossos hospitais, pois revela a verdade interior de nossa alma. É um olhar que sabe ver o profundo de cada ser humano, e por isso mesmo, não obstante o amor com que nos ama, sabe também pôr às claras toda hipocrisia: “«Tomai cuidado com os doutores da Lei, que gostam de exibir longas vestes, de ser cumprimentados nas praças, 39de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes; 40eles devoram as casas das viúvas a pretexto de longas orações. Esses receberão uma sentença mais severa.»” (Mc 12,38-40)
O olhar de Jesus é um olhar que  sabe que por de traz de alguém que oferta muito e à vista de todos, pode não estar todo bem que aparenta. Jesus não se deixa guiar pela aparências: “...porque todos deitaram do que lhes sobrava”...
Que nosso Senhor tenha pena e compaixão de nós e de nossas pastorais quando aparentamos ser mais piedosos do que somos, mais generosos do que somos, mais santos do que somos na realidade.
 Ao contrário, o  que aos outros parecia ser uma mesquinharia, Jesus vê como um  rasgo de fé e generosidade: “Chamando os discípulos, disse: «Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou no tesouro mais do que todos os outros; porque todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía, todo o seu sustento” (Mc12,43-44)
Pode ser que esta viúva que doou estas pequenas moedas, tudo o que possuía para viver, tinha no coração e na mente o texto da primeira leitura de hoje, onde a viúva de Sarepta, ao ajudar o profeta com o pouco que tinha, atraiu sobre si e a sua família a bênção de Deus. O que aconteceu com ela depois deste fato nós não sabemos. O Evangelho não conta. Sabemos apenas que ela atraiu o olhar compassivo e amoroso de Jesus. Certamente onde pousa este olhar compassivo e amoroso, também a Divina Providência não faltará, pois Cristo é a mesma Palavra Eterna que, no Antigo Testamento, afirmou pelo profeta Malaquias: “10Pagai integralmente os dízimos ao tesouro do templo, para que haja alimento em minha casa. Ponde-me à prova - diz o Senhor do universo - e vereis se não vos abro os reservatórios do céu e não espalho em vosso favor a bênção em abundância. 11Em vosso favor afugentarei o gafanhoto para que ele não destrua os frutos da terra, e a vinha não seja estéril nos campos - diz o Senhor do universo.” (Malaquias 3,10-11) A prosperidade aqui prometida vai infinitamente mais longe do que a prosperidade nesta vida, como afirmam algumas seitas neo-pentecostais. O “dai e dar-se-vos-há” de Jesus é muitíssimo mais do que uma prosperidade material. É o fruto de uma caridade sincera que, como diz a Sagrada Escritura, é mais forte do que a morte e leva a si mesmo e aos outros para o Céu.
São Vicente Pallotti já intuía isto. Inclusive esta foi uma das cacusas que deu origem à sua fundação, a União do Apostolado Católico: a administração de dinheiros doados com fim missionário. São Vicente Pallotti, em Roma, foi tomando consciência das necessidades da Igreja, pois era director espiritual de colégios para as missões. Percebeu a necessidade, por exemplo, de imprimir o livro “Máximas Eternas” de Santo Afonso Maria de Ligório em língua árabe. Para esse fim, pediu a um leigo, Giacomo Salvaci, que fizesse uma colecta entre os comerciantes de Roma. No início ele hesitou, mas depois, como o santo insistisse, pôs-se a caminho, descrente, contudo, do êxito de seu empreendimento. No fim do seu trabalho, constatou-se a recolha de um a soma muito superior ao necessário. Para não expor essa obra ao falatório das pessoas, Pallotti fundou uma pequena associação com o fim de gerir esses recursos em prol das missões, com a participação também de fiéis leigos. Mais tarde foi que surgiu a Congregação dos padres, irmãos e irmãs do Apostolado Católico.
Peçamos a Nossa Senhora que também a nossa vida atraia o olhar, senão complascente, pelo menos compassivo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que jamais fiquemos fora da verdade deste olhar, e que a oferta a Deus do que somos e temos, produza verdadeiros frutos para a vida Eterna.

Para os Cenáculos: Partilha alguma experiência tua ou de outra pessoa em que se fez verdade o princípio Evangélico, acolhido na chamada “Oração de São Francisco”: “É dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado”.

Pe. Marcelo

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Defesa de Tese Doutoral

Hoje, dia 04 de novembro de 2015, eu tive a chance de defender a minha tese de Doutorado em Missiologia (Teologia da Missão), pela Pontifícia Universidade Urbaniana, em Roma – Itália.
Depois de vários anos especializando-me, ou seja, fazendo um bacharelado e depois um mestrado nesta área, tive a alegria de, hoje, defender minha tese, cujo título é: O Fiel Neopentecostal como destinatário do anuncio do Reino. E o subtítulo: Recuperar o anúncio do Reino de Deus para um confronto com o Neopentecostalismo e a sua teologia em um novo tempo da Igreja no Brasil.

O trabalho desenvolvido ao longo destes anos buscou identificar o pensamento teológico das igrejas neopentecostais e fazer um contraponto com a doutrina católica. Não tem um objetivo de condenação ou de apologia, mas buscou-se conhecer para esclarecer... (um resumo da tese pode ser visto logo abaixo).

A defesa ocorreu num clima de alegria e de emoção; os professores me fizeram perguntas; “puxaram” de mim alguns posicionamentos, próprio como deve ser, numa defesa.
Estou feliz. Estou satisfeito. Acredito, neste percurso todo, ter discernido a Vontade de Deus e tê-la cumprido.

Como doutor em Missiologia, agora, resta-me ajudar na conscientização missionária de cada um, de cada batizado.

Pe. Daniel Rocchetti
Resumo
O Reino de Deus é um conceito bíblico que perpassa todas as fases da história da Salvação: desde os primeiros momentos desta história com Abraão até ao seu ápice, com a Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, e como uma continuidade, também nos dias da Igreja. O Reino de Deus é dom e como tal, é recebido. Ele é simples e é frágil, pois precisa ser acolhido para que se manifeste. De fato, o Reino de Deus é o encontro de dois movimentos, ou seja, acontece quando Deus encontra o homem e este encontra a Deus e se abre à Sua Vontade. A riqueza do Reino de Deus é Ele mesmo. E experimentá-lo, é aceitar a Sua Vontade.
Hoje a Igreja no Brasil sofre a saída de muitos de seus membros que preferem ao discurso e à experiência neopentecostais. Esta pregação apresenta o Reino de Deus como uma experiência de prosperidade e benesses. Neste Reino, a pobreza é sinal de maldição. Neste Reino, ninguém participa se não abraça a doutrina neopentecostal. Este Reino, portanto, desvirtua o lugar do pobre, que era privilegiado no coração de Deus e de Seu Povo. Na pregação deste Reino de Deus, o centro é a posse, e o critério de valor é o ‘ter’.
O fiel neopentecostal é, portanto, um novo sujeito à missão cristã. De fato, ele é sujeito ao anuncio do Reino de Deus. Urge apresentá-los à doutrina acerca do Reino, encarnada e vivida pelo próprio Senhor Jesus, que sendo rico fez-se pobre. E que tornou bem-aventurados aquele que eram desventurados, excluídos e pobres.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

“A ESPERANÇA NÃO ENGANA” (Rm 5,5)

O dia de todos os santos que estamos a celebrar, longe de ser uma festa melancólica ou saudosista, pelo contrário é uma festa cheia de alegria e encanto. Podemos dizer que é a nossa festa.
Sim, pois numa época em que os cristãos eram ainda muito poucos São João teve, na Ilha de Patmos,  a seguinte visão: “Depois disto, apareceu na visão uma multidão enorme que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé com túnicas brancas diante do trono e diante do Cordeiro, e com palmas na mão. ( Ap 7,9 ss.) Ou seja, em profecia, João já no início do Cristianismo, teve a visão de Jesus ressuscitado, Senhor da história a Jerusalém Celeste que o louvava  formada de povos de todas as nações e linguas.  A confirmar que esta é uma festa que nos diz respeito, o próprio São Paulo chama, por exemplo, os cristãos vivos de Filipos de santos: “Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com seus bispos e diáconos” (Fil 1,1) E isto ele o faz, em suas cartas, cerca de trinta vezes.
Em sentido estrito, porém, celebramos neste dia, aqueles que já se encontram de posse daquele bem por excelência e que se encontram unidos a nós pelos vínculos da caridade que Nosso Senhor foi criando durante a nossa vida terrena e que é aperfeiçoado na vida Eterna. Muitos santos como Santa Faustina e Santa Teresinha do Menino Jesus, inclusive, disseram que sentiam que a sua missão verdadeira começaria com a sua partida deste mundo, tal o realismo com que sentiam em si o mistério da Comunhão dos Santos.
Contemplar essas realidades nos faz: “… alegres na esperança, pacientes na tribulação, perseverantes na oração.” (Rm 12,12)
  Dizia o Papa Bento XVI na sua Encíclica sobre a Esperança Cristã: “Somente quando o futuro é certo como realidade positiva, é que se torna vivível também o presente.” (Spes Salvi, nº 2)
Daí vemos a importância fundamental do que escutamos em cada Santa Missa: “Corações ao alto” (Sursum corda). Sem contar os santos canonizados pela Igreja, que são mais de vinte mil, temos ai uma multidão anónima de fiéis, inclusive nossos familiares que já gozam daquele plenitude de amor e vida que lhes comunica a visão de Deus sem mediação de criatura alguma. Somente esperam o Dia do Senhor, onde também seus corpos participarão da Ressurreição de Cristo.
O dia 31 de Outubro era justamente a festa pagã dos povos Celtas que pensavam que, na época das colheitas, as almas dos mortos vinham se alimentar e por isso era necessário espantá-los com imagens aterrorizantes... Quando estes povos foram evangelizados, a Igreja teve a delizadeza de substituir esta festa pagã pela festa de todos os Santos no dia 1 de Novembro. Quem não se converteu, continuou a celebrar tal festa pagã, e por isso, é lógico que não se coaduna com o verdadeiro espírito cristão, e não deve ser estimulada como uma espécie de “folclore”. Isto, sem dizer que algumas seitas satânicas aproveitam deste dia para fazer os seus desmandos. Pelos terrores que se promovem neste dia em alguns lugares, parece até uma “festa dos condenados’, que não tem motivo nenhum para festejar.
Já no dia dois, celebramos uma realidade correlata à de Todos os Santos. Nos diz também o catecismo: “Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não de todo purificados, embora seguros da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do céu. A Igreja chama Purgatório a esta purificação final dos eleitos, que é absolutamente distinta do castigo dos condenados…” (Catecismo nº 1030 e 1031)
Nós podemos ajudar estes nossos irmãos que a tradição da Igreja chamou de Igreja padecente. Esta ajuda consiste na oferta do Sacrifício da Santa Missa e também das indulgências, que são concessões que a Igreja, em posse das “chaves do Reino” que lhe entregou Jesus Cristo, faz para os seus fiéis em algumas circunstâncias. Um desses tempos de graça é justamente este início de Novembro. Quem visita, com o coração sincero e espírito de fé, um cemitério e nele ore pelos fiéis defuntos, lucra indulgência em favor das almas do purgatório.  Dos dias 1 a 8 de Novembro esta indulgência é plenária e nos demais dias do ano é parcial. As condições para a indulgência plenária são bem conhecidas: Ter se confessado ou se confessar em breve (estar em estado de graça), Receber a Eucaristia, rezar na intenção do Santo Padre e fazer a obra prescrita, no caso a visita ao cemitério com oração pelos falecidos. Vamos fazer amigos no céu? É o convite que a Santa Igreja nos faz.
Para os Cenáculos:
1-      Em meio aos sofrimentos desta vida, que importância tem a Esperança cristã?
Pe. Marcelo


sábado, 24 de outubro de 2015

BARTIMEU, UM CEGO DE OUVIDOS ATENTOS

Nos dois domingos anteriores,  e neste, estamos ouvindo o que contribui e o que não contribui para o seguimento de Nosso Senhor na vocação de cada pessoa. Vários seguem Jesus no caminho para Jerusalém. Com quais nos identificamos? Algumas atitudes ajudam neste seguimento, outras atrapalham...
Quais não ajudam? O apego do “Jovem rico”... o “carreirismo de Tiago e João”...
 Pallotti, querendo livrar os seus filhos espirituais deste último engodo, acrescentou às promessas normais das congregações a promessa de espírito de serviço, fazendo com que o objetivo maior dos consagrados fosse salvar almas e não uma carreira...
Neste domingo vemos um cego que o era fisicamente, mas estava longe de sê-lo espiritualmente. Não enxergava por uma limitação física que o tornava até mais humilde, pois dependente, em  quase tudo, dos outros. No entanto, quando soube que era Jesus o Senhor e Mestre de Nazaré que passava, sua fé se acendeu e começou a clamar: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim”. A princípio as pessoas tentaram fazê-lo calar, mas quando ouviram que Jesus o chamava, encorajaram-no.  Clamou até que ouviu o chamado. O olhar amoroso de Jesus sobre nós é a nossa vocação: -“Chamai-o.» Chamaram o cego, dizendo-lhe: «Coragem, levanta-te que Ele chama-te”. 
Em que circunstâncias Jesus o chamou? Aqui cabe um precioso detalhe.  O versículo 46, que é aquele que inicia o Evangelho de hoje, diz textualmente o seguinte: “Chegaram a Jericó. Quando ia a sair de Jericó com os seus discípulos e uma grande multidão, um mendigo cego, Bartimeu, o filho de Timeu, estava sentado à beira do caminho”.   Imediatamente depois que o Evangelista disse que Jesus Chegou a Jericó, foi logo dizendo que ele estava já de saída....
Como explicar isso? Jerusalém é o protótipo da cidade celeste, Jericó é o símbolo deste mundo, não daquele mundo que Jesus amou a ponto de dar a vida, mas do mundo no sentido negativo de “mundanidade”. Assim, comparado com a eternidade, a passagem de Jesus por este mundo e a nossa própria vida, não deveriam nem mesmo caber em um versículo. Matematicamente, também as ciências modernas nos levam a pensar assim. Os cientistas, atualmente,  estimam a idade do universo em 13,7 bilhões de anos. Se fizermos uma escala dessa idade para 14 anos, nossa vida, que normalmente tem cerca de 80 anos, a mesma teria a duração de cerca de 3 segundos”.   Neste sentido entendemos uma frase de são Vicente Pallotti: “Deus Criou os homens nesta temporalidade apenas para fazê-los felizes na eternidade.” Por isso entendemos como  é preciosa a graça da vocação e como devemos aproveitar desta graça para viver bem. Devemos ter a prontidão do Jovem Samuel: «Aqui estou, pois me chamaste.» (1 Samuel, 3,8)
Na realidade , se vermos as estatísticas,  a cegueira  física é uma minoria da população, mas a espiritual, aquela que impede de seguir a Cristo rumo a Jerusalém Celeste no caminho da Cruz, ou seja, do dom sincero de si mesmo em sua vocação é, certamente, muito mais difusa. Muitos, até nas doutrinas que ensinam propõe um Céu e um cristianismo, quase somente para este mundo, como se, a todo custo, os homens tivessem que desejar um Céu aqui e agora.  Certa vez, São João Paulo II, cuja memória comemoramos nesta semana que passou,  num discurso aos jovens chilenos, disse com voz enfática:
-“ Tendes sede de vida”... (afirmativa) “-De vida eterna”? ...(seguiu-se um silêncio);
 Perguntou mais alto: “De vida eterna? – “Sim” (seguiu-se um “sim” tímido);
 O papa perguntou pela terceira vez quase que gritando:
 “-De vida eterna”? – Sim (aí sim os jovens responderam bem alto e com grande entusiasmo)
Ao nosso mundo tão apegado aos próprios bens, tão apegado ao poder sem serviço humilde ao irmão, tão apegado ao prazer ilícito a todo custo, Jesus repete: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”.
Certa vez, em Odivelas aconteceu um fato curioso a esse respeito. A esposa do coordenador do grupo de oração da Paróquia era cega. Custava-nos ver aquela senhora chegando ao grupo de oração sempre amparada pelo seu esposo. Dentro do nosso coração, tínhamos a intuição que Nosso Senhor a queria curar. Por isso, não raras vezes, depois do grupo de oração, impúnhamos as mãos e rezávamos por ela pedindo a Jesus a Graça de sua cura física. Nada aparentemente ia melhorando... Fui transferido para outra paróquia, e certo dia, em visita a Odivelas e celebrando a Eucaristia, qual não foi a minha surpresa quando vi aquela senhora que era cega, levantar-se para fazer a leitura da santa Missa. Depois da mesma, fui cumprimenta-los alegremente e perguntar o que tinha acontecido.  A resposta foi que ela tinha sofrido uma cirurgia e estava já vendo. Nosso Senhor , neste caso, não quis curá-la diretamente , mas quis usar uma mediação humana na pessoa do cirurgião. A segunda leitura de hoje fala do sacerdócio de Cristo. Mas fala também do sacerdócio de Cristo comunicado a seres humanos. De quem o autor da carta aos Hebreus poderia estar falando quando afirmou: “Pode compadecer-se dos ignorantes e dos que erram, pois também ele está cercado de fraqueza; por isso, deve oferecer sacrifícios, tanto pelos seus pecados, como pelos do povo”. (Heb 5,2s)
No nosso caso de cegos espiritualmente por tanta impureza propagada aos quatro ventos , Nosso Senhor também quer usar de uma mediação: O sacramento da Reconciliação.
Se o fizermos, participaremos da alegria dos que retornam do exílio na primeira leitura de hoje, mesmo tendo entre eles cegos e aleijados (símbolo da fraqueza); gestantes e parturientes ( símbolo daqueles que têm uma responsabilidade a mais de cuidar dos outros).
O cego do Evangelho tinha algo de bom: não era surdo... Mesmo que já tenhamos escutado a voz de Cristo muitos anos atrás no início de nossa vocação, peçamos a Ele que possamos escutar sempre a sua voz no hoje de nossa vida, pois o Senhor continua a chamar-nos com várias vocações dentro da nossa vocação, seja num pobre que nos pede algo, seja no que não tem a consolação da fé, seja numa renovação de vida e trabalho missionário mais desafiador, seja na chegada de mais um filho nos que são casados. É sempre uma vocação dentro da própria vocação.
Virgem Maria, Mãe das vocações, ensina-nos a aproveitar esta graça para seguir o Vosso Filho no caminho que nos leva à Jerusalém Celeste, Amém.

Para os cenáculos:

O que significa para ti, hoje, aproveitar a graça da própria vocação? Já escutaste o chamado de Cristo?

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Apóstolos Hoje - Setembro 2015

Congresso Geral 2015 – do discurso da Presidente
Caríssimos! Faz pouco tempo que celebramos o III Congresso Geral da União em São Paulo no Brasil (14-8 de julho de 2015). Foi um tempo especial de graças, onde experimentamos a alegria da partilha no vital frescor do carisma do Fundador. Através dos rostos, as histórias, os testemunhos, as reflexões, os diálogos, as celebrações que todos participaram, o Senhor se fez presente e nos impulsionou sempre mais a viver na e pela Caridade de Cristo. Todos, membros e colaboradores da União, estiveram presentes na comunhão de oração e de amor que preenche toda distância de tempo e espaço. Por isso, nos parece belo partilhar com vocês os pontos principais do meu discurso de abertura.
       Inicio então partilhando o dom recebido, partilhando e apresentando aquilo que sou e aquilo que mais me está no meu coração da União. É importante dizer, primeiro, que é graças à fidelidade de tantas pessoas, no presente e também de quem nos precedeu, que hoje somo aquilo que somos como Família palotina. Fidelidade a Deus conhecido e reconhecido como Amor Infinito e Misericórdia Infinita na inexaurível riqueza das histórias de cada um.

Parte I – apresentação pessoal
     Também para mim foi assim, já faz tantos anos. Era 1973, nos inícios da história da minha comunidade, Quinta Dimensão. Era uma jovem estudante, rebelde do mundo. Queria fazer a revolução contra as estruturas da sociedade; mudá-las, transformá-las: acreditava que seriam elas que impediam o bem, a solidariedade, a generosidade, a justiça, a fraternidade. Mas durante um encontro onde com alguns outros estudantes falávamos de como construir um mundo novo, fui eu, ao invés, mudada, transformada por uma frase; quem me disse foi Pe. Leonardi, palotino e nosso professor de religião. A frase ainda hoje é paradigmática para cada coisa que vivo: para que no mundo exista paz, amor, tolerância, fraternidade, verdade, escuta, não basta mudar somente as estruturas. É o homem que as cria, somos nós a criá-las. É necessário, por isso, primeiro de tudo mudar a nós mesmos e colocar no centro da vida o Evangelho de Jesus. Intuí então que devia iniciar mudar por mim. Iniciei assim a fazer a experiência que a vida cristã – a vida palotina – é simples e também plenamente humana: viver fazendo aos outros aquilo que gostaria que fosse feito a você. E o mundo é seguramente feito novo, também nas estruturas.
     Em de 2013, Papa Francisco disse aos Bispos latino-americanos: A a“‘mudança das estruturas’ (caducas ou novas) não é fruto de um estudo sobre a organização inicial e funcional eclesiástico, de onde resultaria uma reorganização estática, ela é consequência da dinâmica da missão.”
Faço agora um longo salto temporal a 30 de março de 2015, segunda-feira da Semana Santa, dia em que o Conselho Geral me elegeu Presidente da UAC. Nunca alguém de nós tinha pensado, imaginado, sonhado uma novidade assim surpreendente: um leigo – e ainda mulher – Presidente de toda a Família Palotina.
Na longa troca de ideias e desejos aspirações entre os membros do CCG, a um certo ponto saiu o meu nome e todos me olharam. Não tinha entendido muito bem; pensava que aquele nome era uma hipótese para uma UAC do futuro, ainda bem longe. Assim me levantei da cadeira e fui ao banheiro. Quando saí diante da porta doo banheiro encontrei Cheryl Sullivan, membro do CCG, que me esperava. Não recordo bem o que nos falamos se não, que nos queríamos bem e fazíamos todas as coisas juntos, em comunhão. Isso somente valia, isso somente vale.
Antes da votação teve um tempo de discernimento espiritual pessoal. Eu fui à Capela e me coloquei diante de Jesus, presente no Tabernáculo. Já me era claro que alguma coisa estava por acontecer; não somente a mim, mas também a cada um dos outros membros do CCG e a toda a União. Eu disse: “Jesus, meu Senhor, tu sabes quem sou. Contudo, se deve ser eu a pessoa escolhida, deves dar-me duas coisas. A primeira: se isso ocorrer, que não seja reconhecimento de qualidade pessoal, mas do caminho percorrido com a comunidade, impelido pelo carisma de São Vicente Pallotti na história da União. A segunda: que não seja uma eleição como uma vitória entre adversários, mas seja sinal de forte consenso, de unidade.” Jesus me deu aquilo que eu lhe pedi. Com muita alegria e consciência posso dizer que não somente a minha aceitação, mas também a de cada membro do CCG. Todos – podemos dizer – demos sim a Deus e aderido ao seu designo surpreendente e ‘revolucionário’.
Até aqui contei sobre mim. Para mim é importante partilhar as experiências porque nos ajudam a levantar o olhar não mais direcionado numa direção particular, mas com um olhar à União acolhendo-a na sua complexa inteireza. Gostaria agora de prosseguir com a segunda parte sobre aquilo que mais me está no coração acerca da UAC, desenvolvendo três aspectos: memória, capacidade de ver o presente, utopia em direção o futuro (Papa Francisco ao cotidiano argentino “La Voz del Pueblo”, maio de 2015).

Parte II
Memória
       Gostaria de partir do Estatuto Geral e evidenciar alguns elementos que constituem o seu fundamento, dessa forma trazer à tona a memória comum da vida e da forma da União deste decênio (um pouco mais de um decênio). Memória comum: aquilo que envolve todos nós, nos pertence e sistematiza a nossa responsabilidade em direção a Deus e os homens no mantê-la vital e em enriquecê-la.

       O Estatuto Geral é fruto de um trabalho comunitário longo e paciente, iniciado nos anos 90, mas que tem raízes históricas mais antigas quando, o Concílio Vaticano II convidou cada Família Religiosa a voltar “às primitivas inspirações dos institutos” a “sua própria fisionomia” (Perfectae Caritatis, 2). E unir-se através de uma estrutura jurídica (cf. Partes II-IV) as várias partes da Família (sacerdotes e irmãos, irmãs, leigos), unidos já por um vínculo moral que descende do carisma de fundação (cf. Parte I).
       O Estatuto apresenta este vínculo através dos elementos espirituais essenciais: reavivar a fé e reacender a caridade para unir todos em Cristo; chamar todos – seja religiosos, leigos, bem como clérigos – ao apostolado; unir os esforços de todos a serviço da Igreja. Depois prossegue sem interferir com a sua estrutura jurídica e com a vida interna das partes singulares. Assim o Estatuto pode aplicar-se a todas as partes da Família Palotina, e cada uma pode reconhecer com paridade de direito.
       O elemento comum e essencial da identidade do carisma e da unidade da Família Palotina, é o Apostolado Católico. É o título que qualifica a sua vocação na Igreja, o elemento irrenunciável (cf. OOCC X, 196-201; III, 139). Eis a obra nova na Igreja que, na memória agora partilhada, abre-se ao presente.

Capacidade de ver o presente
       “Gostaria de fazer outro esclarecimento a respeito do carisma: corremos o risco de considerá-lo somente como um «conteúdo», mas não é assim. Cada carisma de fundação inclui um «conteúdo», mas, ao mesmo tempo, também um «modo de ser», um «modo de proceder» peculiares. Isto é importante quando se trata de «atualizar» um carisma de fundação”.[1] Seguindo o pensamento do Papa, de fato, podemos dizer que o “conteúdo” do carisma da nossa fundação é o apostolado católico, o elemento irrenunciável. Mas, disse o Papa, além do conteúdo existe mais ainda: existe o modo de ser, o modo de proceder, essenciais para atualizar o carisma de fundação.
       Desde a aprovação da União até hoje foi feito muito caminho: a constituição e as atividades do CGC, dos CNC e dos CLC; os programas de formação; as equipes de formação com os promotores; os congressos gerais, continentais e mundiais; as admissões dos novos membros com o Ato de Compromisso; as celebrações jubilares; os oitavários; o plano de ação anual, etc. Tudo contribuiu e contribui, com a graça de Deus, para dar estabilidade estrutural na edificação de uma obra assim complexa e diversa como a UAC. É um processo necessário para encarnar, concretizar a experiência de Espírito que São Vicente nos deixou como dom, pois vale também para ele: “Para os Fundadores e as Fundadoras a regra em absoluto foi o Evangelho, cada outra regra queria ser somente expressão do evangelho e instrumento para vivê-lo em plenitude”.[2] O nosso presente resplandesce certamente luzes, mas – em diversos lugares e em diversas formas – resultam também as sombras. É preciso saber lê-las com sabedoria pois, se de um lado o elemento humano é sempre débil, frágil, vulnerável, de outro reconhecemos que a força do Espírito Santo se serve também das sombras para levar adiante o seu projeto. Essas sombras, então, não são ignoradas, deixadas à certa distância ou delegadas a outros, mas são necessárias para crescer, para atualizar o «modo de ser », «modo de proceder». Eis a minha proposta: a colaboração e a comunhão exigem hoje o gerar ou renovar a consciência das várias expressões da União, pois para dar significado à pertença à Família Palotina não é mais suficiente a estabilidade estrutural. Compreendemos que é necessário colocar no centro da comunhão a relação, o diálogo direto entre as pessoas. O que seria a Igreja sem a experiência vivida pelo mandamento novo do amor? O que seria da UAC se os seus membros e colaboradores não vivessem entre eles o constitutivo substancial da caridade? “Que todos possam admirar como vos cuidais uns dos outros, como vos encorajeis mutuamente e como vos acompanheis” (EG, 98.99).

Utopia voltada ao futuro
       A utopia voltada ao futuro é empenhar-se – “resolver-nos”, diria o Fundador – a estar em comunhão uns com os outros, renovando cada estratégia pessoal e comunitária para favorecer a unidade. Na Obra de São Vicente Pallotti, nas suas palavras, somos todos chamados a ser cofundadores com ele.

Conclusão
       Convidamos-nos e sustentemos-nos uns aos outros para percorrer com paciência e humildade corajosa esta via, sem dúvida mariana nos modos, conscientes que a comunhão deve ser e tornar a primeira forma de evangelização: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35). O que nos torna União é a comunhão. E o Apostolado Católico é a sua irradiação direta, espontânea, natural. As gerações futuras estão no nosso presente. E esta é uma certeza que acompanha o nosso empenho de servir fielmente a Deus e com alegria na União do Apostolado Católico.
“Como nos faz bem, apesar de tudo, amar-nos uns aos outros! Sim, apesar de tudo! Não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno!” (EG, 101). Não, não nos deixemos roubar-lhe! Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós. Obrigado pela vossa atenção!


                                                                              Donatella Acerbi,
                                                                              Roma.



[1] Mons. Jorge Mario Bergoglio, no Sínodo sobre a Vida Consagrada e a Sua Missão na Igreja e no Mundo, XVI Congregazione generale, Roma, 13 outubro 1994, n. 5.
[2] Papa Francesco, Lettera Apostolica alle Consacrate e ai Consacrati, 21.11.2014, I,1.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Dia de Nossa Senhora Aparecida

Querida Mãe Nossa Senhora Aparecida. Vós que nos amais e nos guiais todos os dias, vós que sois a mais bela das Mães, a quem eu amo de todo o meu coração. Eu vos peço mais uma vez que me ajudeis a alcançar uma graça. Sei que me ajudareis e sei que me acompanhareis sempre, até a hora da minha morte.
















sábado, 10 de outubro de 2015

NÃO SÓ SALVOS, MAS SANTOS

Na Próxima segunda-feira comemoraremos a festa de nossa Padroeira, Nossa Senhora Aparecida. Estamos, porém, assistindo algo inédito na história do nosso País, e, talvez do mundo inteiro.  Já ouvimos falar de políticos que foram vaiados, mas  governantes que foram xingados em estádios de futebol, isso é inédito. Sempre guardou-se um certo respeito pelas autoridades. Mas diante de tantos escândalos de corrupção, parece que a panela de pressão explodiu. A válvula não consegue mais dar conta da pressão. Mas diante desse quadro, podemos ter um posicionamento que o Evangelho de hoje denuncia.
 Pode acontecer que nos achemos até muito bons. Se o nosso termo de comparação são os corruptos, os mensalões, os petrolões, os que propagam o casamento gay, podemos achar que somos até bem “bonzinhos”. Não mato, não roubo...  Diante disso tudo podemos ir até Jesus com as motivações do jovem rico do Evangelho, que até, a princípio, eram boas. “«Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» (Mc 10,17) Motivação válida, sem dúvida. A salvação da própria alma não é negócio de pouca importância. “Jesus disse: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus. Sabes os mandamentos: Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes, honra teu pai e tua mãe”. (Mc 10,18 s) Jesus não pergunta se ele conhecia os mandamentos, mas afirma-o – “Sabes os mandamentos”-, porque desde toda a eternidade já o conhecia.
“Ele respondeu: «Mestre, tenho cumprido tudo isso desde a minha juventude”. Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele e disse: «Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me”. (Mc 10,20) O Evangelho diz que Jesus olhou para ele com amor, com simpatia e faz-lhe um chamamento. Chamamento, vocação, é o olhar amoroso de Jesus para cada um de nós. “Se queres ser perfeito,.....” Esta é a nossa vocação. São Paulo vai falar sobre ela na carta aos Efésios: “Foi assim que Ele nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis na sua presença, no amor”. (Efésios 1,4) Ou seja, Jesus Nosso Senhor revelou a esse jovem a sua alta vocação.
No entanto ele saiu triste porque possuía muitos bens.
Tristeza é o sentimento recorrente no coração de cada ser humano quando ele não corresponde à sua  vocação.
Com esta atitude, vemos que, na verdade, este jovem não observava realmente todos os mandamentos. Não observava logo o primeiro: “Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças”. (Mc 12,29-30)
Na verdade a avareza não era  nem mesmo o seu maior pecado, mas sim o orgulho e a impiedade. Se ele, como Pedro, tivesse admitido as suas debilidades e pedido a graça da conversão, Nosso Senhor teria lhe dado, certamente, uma graça atual e ele seria o décimo terceiro Apóstolo. Pedro, humildemente, certa vez, disse: “«Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador”. (Lc 5,8) Ao que Nosso Senhor respondeu: “«Não tenhas receio; de futuro, serás pescador de homens”. (Lc 5,10)   Se ele tivesse dito: “- Senhor, bem conheces a minha fraqueza, meu apego a meus bens. Tende piedade de mim e dá-me a graça de me desapegar de tudo aquilo que me impede de abraçar a minha vocação...”. Certamente Nosso Senhor o teria atendido.
Com isso compreendemos as palavras de Nosso Senhor, a seguir, quando respondeu  à perplexidade dos Apóstolos: “Então quem pode salvar-se? Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível”... Ou nas Palavras de São Padre Pio: “Quem reza se salva, quem não reza se condena”. Visto  que “... é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie”. (Ef 2,8)
Vale a pena rezar e dedicar-se a essa empresa que é a maior de todas: a salvação das almas. Estamos, neste ano de 2015 a recordar os 500 anos do nascimento de Santa Tereza de Jesus. Quando criança ela falava ao irmãozinho e o irmãozinho a ela: “Há o Céu... e é para sempre, para sempre, para sempre.... Há o inferno, e é para sempre, para sempre , para sempre...”  Mais tarde, já monja ela diria: “Estou disposta a dar mil vidas pela salvação de uma  única alma”.  Se fizermos as contas, dizia um padre comentador, mil vidas seriam no máximo cem mil anos. O que é cem mil anos na eternidade de uma única alma? Nada... Só os nossos foceis pré-históricos que temos em alguns museus tem 130 milhões de anos.
Diante da negativa do jovem rico, Pedro toma a voz dos doze e pergunta: “ «Aqui estamos nós que deixámos tudo e te seguimos.» Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: quem deixar casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, no tempo presente, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, juntamente com perseguições, e, no tempo futuro, a vida eterna”. Cem vezes mais e a vida eterna.... por exemplo: um seminarista que, impulsionado pela graça, com reta intensão renuncia a um emprego ou ao matrimônio  para servir a Cristo na vida consagrada ou no sacerdócio verá o seu instinto paternal derramar-se sobre muito mais pessoas, e ganha, certamente, muito mais pais , mães, irmãos e irmãs, junto com perseguições e no mundo futuro a vida eterna.
Uma pergunta pode surgir: Este Evangelho, então, pode ser vivido apenas pelos que optam pela vida consagrada e pelos que são muito pobres? A história da Igreja nos responde que não. Existem, muitos reis e rainhas, homens de posses, que usaram seus bens com desprendimento para a glória de Deus e a ajuda dos pobres. Vemos uma Santa Isabel rainha de Portugal que ajudou a construir Igrejas e era pródiga em cuidados com os pobres, até tratando disso pessoalmente...
É licito acumular alguns bens, principalmente se se tem família, quando sua origem é lícita e também a finalidade do uso é reta, ou seja, a glória de Deus, e o bem das pessoas, principalmente dos que lhe são dependentes e dos mais pobres. Quando o meio de aquisição é ilícito e ou a finalidade a que se destina é somente os próprios prazeres, vemos o que estamos assistindo. A desmoralização de autoridades.
É hora de rezarmos a nossa Padroeira pelo Brasil com o terço nas mãos, pedindo que nos livre de ideologias nefastas como o comunismo, a desmoralização das instituições a  que levou o apego a riquezas e ao poder conseguidos ilicitamente. Peçamos a Nossa Senhora que sejamos não somente salvos, mas santos. Conduze o nosso Brasil Virgem Aparecida, como nos dizia São João Paulo II, a uma “medida alta da vida cristã”. Assim seja.
Pe. Marcelo Nespoli SAC