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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Praticante da Palavra de Deus

São Vicente Pallotti - Praticante da Palavra de Deus
“Desde a tua infância conheces as Sagradas Escrituras. Elas têm o poder de te comunicar a sabedoria que conduz à salvação pela fé no Cristo Jesus” (2Tm 3,15).

O mês de setembro no Brasil é dedicado à Bíblia, que contém parte da Palavra de Deus. Por isso, a Igreja nos faz um convite, que é também uma convocação, para conhecer melhor e amar mais a Palavra de Deus, a fim de que ela seja o farol no caminho da nossa vida, como diz o salmista: Tua palavra é lâmpada para meus passos, luz no meu caminho (Sl 119,105).
A seguir, vamos considerar a vida de santidade de São Vicente Pallotti e a Palavra de Deus e analisar a relação que existe entre elas.
Para início de conversa, uma pergunta: como Vicente Pallotti chegou a um tão alto grau de santidade? A exemplo de muitos outros santos, a resposta está no fato de ele ter-se deixado modelar pela Palavra de Deus: o seu coração foi aquele terreno bom no qual a semente da Palavra produziu frutos de santidade (cf. Mc 4,20). A exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, diz: “A Palavra de Deus chega aos  homens através do encontro com testemunhas que a tornam presente e viva”  (n. 97). Essas testemunhas são os santos e santas de Deus.
Na Bíblia, encontramos revelada a nossa vocação à santidade: Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo (cf. Lv 11,44). São Paulo nos dirá que o Pai, em Cristo, escolheu-nos, antes da constituição do mundo, para sermos santos e imaculados diante dos seus olhos (Ef 1,4) e ainda ele diz mais: A vontade de Deus é esta: a vossa santificação (1Ts 4,3). Assim, vemos que não faltam apelos bíblicos para que sejamos santos.
Também um dos capítulos da Constituição dogmática sobre a Igreja do Concílio Vaticano II é dedicado à vocação universal à santidade na Igreja: todos os membros da comunidade eclesial são chamados à santidade, pois todos na Igreja, [...] são chamados à santidade (LG, 39).
Vicente Pallotti tinha uma grande familiaridade com a Palavra de Deus e, por isso, a conhecia em profundidade. Basta ver as inúmeras citações nos seus escritos, tanto dos Evangelhos como das cartas de São Paulo. Foi a Palavra de Deus que iluminou o seu pensar, o seu agir e o colocava em união com Deus. Assim ele se expressou: Todas as vezes que tomo nas mãos a Sagrada Escritura purifico-me de alma e corpo, elevo-me até o outro mundo, divinizo-me.Ele queria que a santidade de Cristo fosse a sua santidade e que a palavra de Cristo fosse a sua palavra. Por isso ele a tinha em grande consideração, a ponto de dizer: Antesde pôr-me a rezar pensarei que nem sou digno de escutar a palavra de Deus e nem mereço que Deus escute a minha.
A vida de santidade de Vicente Pallotti pode ser um estímulo para nós vivermos em plenitude essa vocação fundamental à qual somos todos chamados: sermos santos! A vida dos santos é um exemplo de que as exigências evangélicas para os seguidores de Jesus, embora sejam difíceis, não são impossíveis de serem colocadas em prática. Com a sua vida, Vicente Pallotti deu testemunho ao mundo e à Igreja da perene fecundidade do Evangelho de Jesus Cristo.
 Foi a Palavra de Deus que lhe abriu os olhos e o coração para descobrir e sentir o surpreendente amor e a misericórdia de Deus, manifestados na obra criação do mundo, sobretudo na criação da pessoa humana à sua imagem (cf. Gn 1,27), e em Jesus, que nos amou e se entregou por nós (cf. Gl 2,20). Por sermos vivas imagens de Deus Pai, devemos ser santos e perfeitos como o Pai celeste, até alcançar a mais alta perfeição. Vicente Pallotti exclamava: Vós sois a santidade e a própria perfeição, e quereis que também nós sejamos viva imagem de vossa santidade e perfeição.
Foi também à luz dessa Palavra que ele deu a sua resposta, descobrindo o modo de viver a sua vocação e missão. Ele agradecia sempre a Deus pelo dom de ser cristão e também por aqueles que o tinham ajudado a acolher tal dom, sobretudo os seus pais.
Com a palavra, e sobretudo com o exemplo, Vicente Pallotti nos mostra como devemos e podemos também nós responder ao amor de Deus manifestado em nossa vocação e missão procurando crescer sempre na santidade e na perfeição evangélica.
Vicente Pallotti tinha muito orgulho de viver na cidade de Roma, porque nela o apóstolo Paulo pregou o Evangelho da Salvação. Ele tinha um fascínio em relação à figura espiritual de São Paulo apóstolo. Nas Obras Completas de Vicente Pallotti encontram-se mais de duzentos textos de São Paulo apóstolo. Ele, além de comentar alguns textos paulinos, os utiliza para seu caminho espiritual e para a orientação espiritual das pessoas. Em seus escritos faz sempre referência às cartas de Paulo, com a seguinte expressão: “Como diz São Paulo Apóstolo”. Para mostrar a importância dos textos de Paulo é a recomendação feita por Pallotti aos seminaristas da Congregação: “No início do primeiro ano de filosofia até todo o curso da sagrada teologia devem decorar das Epístolas de São Paulo cerca de vinte e cinco versículos por semana, e os recitarão na sala de aula, expondo a história do Antigo e do Novo Testamento”(OOCC VII, 376).
Vicente Pallotti desejava imitar São Paulo, conforme o convite do próprio Apóstolo: “Dou-lhes um conselho, sejam meus imitadores” (1Cor 4,16). Esse propósito encontra-se no seu escrito que diz: “Pretendo pedir perdão com a dor de todas as criaturas, imaginando estar prostrado com a face por terra, na estrada de Damasco, pedindo perdão juntamente com Paulo” (OOCC X, 64). Diante disso, é possível afirmar que encontramos, na vida de Pallotti, muitos traços espirituais de São Paulo. Mas não é só isso: Pallotti faz-se anunciador do ensinamento de São Paulo. As palavras do grande Apóstolo ecoam em muitas passagens de seus escritos.
Por ter levado a sério a Palavra de Deus, é que Pallotti pôde receber um juízo favorável do Arcebispo Spalding, de Baltimore: Era muito conhecido em toda Roma por sua extraordinária santidade. Seu total altruísmo unia-se ao espírito de penitência. Seu amor a todos não vacilava nem diminuía. Nenhuma dificuldade, nenhuma cruz conseguia perturbar sua paciência. A característica mais comovedora de sua personalidade era seu amor total de Deus e de Cristo. Este amor foi o impulso que o moveu, em todos seus esforços; foi a sua verdadeira vida e a alma de todas suas ações, a chave de sua serenidade, a fonte de seu valor e daquela paz interior que se irradiava espontaneamente da sua conduta.
Isso aconteceu não só porque Vicente Pallotti tinha a firme decisão de traduzir em atos concretos as palavras de Jesus registradas nos santos evangelhos, mas também porque elas se constituíram no princípio norteador de toda a sua conduta. Diz ele: Por isso, antes de dar começo a qualquer atividade, somos obrigados a perguntar-nos, a cada uma das diversas circunstâncias do dia, como pensaria, ou falaria, ou agiria nosso Senhor Jesus Cristo. E devemos esforçar-nos, em tudo e sempre, pelo que seja mais perfeito. Como para Vicente Pallotti, também para nós Jesus é a regra mais importante de toda a nossa vida, porque ele é o Caminho, a Verdade e a Vida (cf. Jo 14,6).  Ele nos mostra o modo mais conveniente de agir, nas mais variadas situações do dia a dia.
Para estímulo e edificação nossa, cito um texto de Santo Isidoro, no qual ele diz que a oração nos purifica, a leitura nos instrui. Pratiquemos uma e outra coisa, porque ambas são boas. Quem deseja estar sempre com Deus, deve orar e ler frequentemente. Quando oramos, falamos com Deus, mas quando lemos, é Deus que fala conosco. É duplo o proveito que tiramos da leitura da Sagrada Escritura: ilumina nossa inteligência e, afastando-nos das vaidades do mundo, leva-nos ao amor a Deus. Ninguém pode descobrir o sentido da Sagrada Escritura se não se familiarizar com a sua leitura. Quanto mais assíduos formos na leitura da Palavra de Deus, tanto melhor a compreenderemos, à semelhança da terra: quanto melhor é cultivada, tanto mais frutifica.
Roguemos a São Vicente Pallotti para que nos ensine e nos ajude a seguir o seu exemplo luminoso de santidade, deixando-nos modelar pela Palavra de Deus e, assim, glorificar a Deus pela santidade de nossa vida e de nossas obras.

Pe. Ângelo Lôndero, SAC

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Busquemos a intimidade com Palavra de Deus!


É necessário que nós cristãos estejamos sempre conscientes sobre o valor imenso do encontro entre pessoas: entre a minha e com a Palavra Divina e principalmente na dimensão litúrgica; deste relacionamento pessoal com a Bíblia Sagrada (Palavra de Deus) gera uma intimidade profunda entre a pessoa do homem e a Pessoa Divina (Palavra de Deus).
Ao recordar o Documento da Constituição Dogmática do Concilio Vaticano II, a Dei Verbum, n 21 que havia recordado que nos Livros Sagrados, o Pai vem de modo carinhoso ao encontro de seus filhos e com eles fala; percebe-se logo, como também consolida a profunda realidade da Divina Palavra como manifestação em Pessoa da imagem do Verbo encarnado; e esta realidade torna-se ainda mais evidente se lembrarmos do que afirma São Jerônimo (340-420) ao dizer que, se ignorarmos as Escrituras estaríamos ignorando o próprio Cristo. Por conseguinte, chegar-se-á à conclusão que, para que se estabeleça um verdadeiro e sincero colóquio entre Deus (Palavra Viva) e o homem, é imprescindível que a leitura ("conversa") da Bíblia Sagrada esteja sempre acompanhada pela oração. Com isso, brotará na vida existencial do homem uma intimidade penetrante com Deus que o permitirá reconhecer o verdadeiro sentido de sua vida, de sua vocação, do seu empenho apostólico de batizado.
Portanto, a leitura da Bíblia requer, acima de tudo, uma atitude de escuta porque Ela é o "instrumento através da qual, a cada dia, Deus fala aos fiéis", já que a linguagem é a revelação do ser de um indivíduo, em outras palavras, a intimidade com a Palavra Divina (inscrita) ensina-nos a auto compreendermos como pessoas e nos impulsa para o futuro, incitando-nos à superação de si mesmo, fazendo com que o homem sinta a sua condição de caminhante, de peregrino rumo ao encontro com Ela; pois através do diálogo que se faz com Deus - por meio da leitura orante da Palavra- é que surge interpelações: na vida, na atividade e no apostolado do fiel leitor pondo em prova se tais dimensões existencial e pastoral sejam realmente eco e aplicação concreta da mensagem de Jesus Cristo: Palavra definitiva de Deus, presente na Escritura. Daí se explica porque que a Palavra de Deus é Palavra vivente e eterna, viva e eficaz, pois, ante de ser Palavra de vida e portadora de vida, a Palavra é vida que transforma e renova e, nenhuma criatura diante Dela pode permanecer opaca.
Entretanto, todos esses aspectos que aparece na vida do homem quando este se encontra em íntimo diálogo com a Palavra de Deus inscrita, faz com que sua vivência espiritual ao celebrar na Sagrada Liturgia seja mais frutuosa e mais compreensível ao aspecto Amoroso que há no seio da Trindade com o qual é manifesto (de modo específico entre a Pessoa do Pai e do Filho): a Palavra formada pela plenitude de tudo quanto Deus pronuncia, que se torna o "tu" do Pai, aquele "tu" que o Pai eternamente profere, ou seja, o "Filho" gerado, Deus de Deus, Luz da Luz; afirmando que na Tri-unidade de Deus há o Pai e o Filho, isto é, a Sua Palavra gerada, vivente e eterna; o Logos vem anunciando que o Pai é o gerante e que o Filho é o gerado; e que o Pai é o amante do Filho, o Amado; e que o Pai é Aquele que fala e o Filho é a Palavra. Eis porque a Palavra de Deus está na intimidade do Pai; essa Palavra é vida, é Luz mas, a Sua vinda ao mundo é constantemente contradita pelas trevas que, todavia, não a venceram, e também por aquelas pessoas que não a acolheram.
O Verbo (Palavra do Pai: Jesus Cristo), tornando-se carne e armando a Sua tenda entre nós, permitiu que aqueles que o acolheram pudessem ver a sua glória, como a glória do Unigénito do Pai. Aquele que atinge uma autêntica intimidade com a Palavra de Deus, percebe-se perfeitamente na Liturgia uma dynamis (dinâmica / força / energia) - dada pelo sopro do Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai (e do Filho) -, um poder que conduz à salvação (e não uma simples informação, um saber) da qual a Palavra proclamada emite aos seus celebrantes quando estes a escuta com abertura de espírito. Portanto, a Palavra ouvida traz em si, a força do Espírito Santo, em vista da salvação, confirmando aquilo que o Credo Niceno Constantinopolitano havia afirmado no Concílio de Niceia (325) e no Concílio de Constantinopla (381) onde foi aceito uma versão revista, dizendo que: Ele (Espírito Santo) falou pelos profetas, mostrando com isso que não é uma força mágica ou algo mecânico mas sim uma 'alavanca' que impulsa a adquirir a Fé e a adesão confiante do fiel ouvinte participante da assembleia litúrgica da Igreja; deixando claro que não se pode encontrar a sabedoria que conduz à salvação sem a 'Enérgyía' (dynamis) do Espírito Santo contida na Escritura.
A Igreja crê, portanto, que a Palavra de Deus é perene e pura fonte de vida espiritual como também acredita que Seu lugar privilegiado - para que se haja um relacionamento objetivo com as Escrituras esteja na Liturgia pois, é Nela que Deus fala a Seu povo; o Cristo ainda, anuncia o Evangelho e o povo responde a Deus com cânticos e orações. É na Liturgia que é realizado o diálogo ininterrupto entre a Palavra e o homem com o qual é chamado a se tornar um eco desta mesma Palavra divina no culto e na vida cotidiana, constituindo um autêntico encontro com Cristo e a Igreja na presença do Espírito. Enfim, a Igreja sempre venerou as Divinas Escrituras, da mesma forma como o Corpo do Senhor, pois é na Liturgia que realiza-se a íntima unidade que existe entre a Palavra e o ato sacramental: trata-se, na verdade, de uma única Mesa na qual Palavra e Sacramento se encontram intimamente unidos em um único ato de culto e de santificação.
Depois de observar um pouco sobre o aspecto íntimo que o fiel deve buscar com a Palavra proclamada na celebração Litúrgica, compreende-se que em uma consciente e amorosa relação fará levar a um grande desvelo em escutar, com eficácia, aquilo que a Palavra deseja comunicar aos seus amigos, que somos todos nós!

Pe. Juliano Guilherme SAC
Texto adaptado da monografia
apresentada na Faculdade de Teologia,
no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, RJ.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

ACOLHER A PALAVRA DE DEUS

O acolhimento, que é um dos temas centrais das leituras de hoje, é uma virtude humana muito louvável, inclusive recomendada na Sagrada Escritura. A Carta aos Hebreus, ao  incentivá-la, afirma: Que permaneça a caridade fraterna. Não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos” (Heb 13,1-2). No entanto, a Palavra de Deus vai mais a fundo. Note-se a motivação que aparece no acolhimento tanto na primeira leitura como no Evangelho.
Na Primeira leitura: “A mulher disse ao marido: «Escuta: eu sei que este homem, que passa com frequência por nossa casa, é um santo homem de Deus” (2 Reis 4,9); no Evangelho: “Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá recompensa de profeta; e quem recebe um justo, por ele ser justo, receberá recompensa de justo. E quem der de beber a um destes pequeninos, ainda que seja somente um copo de água fresca, por ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa” (Mt 10, 41-42) A motivação é clara: por ser um santo homem de Deus, por ser profeta, por ser justo, por ser discípulo de Cristo. O próprio Jesus disse: “«Quem vos recebe, a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou” (Mt 10,40) Vai além do acolhimento da pessoa do mensageiro. No fundo é o acolhimento da Palavra de Deus da qual o acolhido é portador e das suas exigências, entre elas, a primeira parte do Evangelho de hoje: “Quem amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem amar o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim. Quem não tomar a sua cruz para me seguir, não é digno de mim. Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la” (Mt 10,37-39)
 Muitos tomam este Evangelho de hoje como uma pedra de escândalo, como se Jesus dissesse que não deveríamos amar ou honrar pai e mãe, filhos ou filhas e até a nossa própria vida. Nosso Senhor não se contradiz. Ele mandou, tanto no Antigo como no Novo testamento, honrar pai e mãe.  Como escreveu Fernando Armellini: “Jesus não pretende contrariar a Tora de Moisés que manda honrar pai e mãe, aliais recomendou muitas vezes esse mandamento (Cf.  Mt 15,4); porém, está consciente de ter vindo “para queda e ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal de contradição, pois assim hão-de revelar-se os pensamentos de muitos corações” (Cf Lc. 2,34-35). Mateus escreve o seu Evangelho num tempo de perseguição. Os discípulos fizeram muitas vezes a experiência de que, para permanecerem fiéis a Cristo, tinham que estar prontos a aceitar até mesmo a rotura dos laços com as pessoas mais queridas. Os Rabis tinham tomado a decisão de expulsar das sinagogas e de excluir do povo eleito quem reconhecesse Jesus como messias; tinham ordenado que quem aderisse à fé cristã, considerada herética, fosse repudiado pelos seus próprios familiares. As consequências desta exclusão eram graves e dolorosas, não só do ponto de vista afectivo, mas também  social e económico”.
Em contrapartida, a Divina Providência não abandona, pelo contrário, sustenta e premia aqueles que acolhem a Sua Palavra e os seus enviados. A generosidade do casal que acolheu o profeta Eliseu foi premiada por Deus com aquilo que era a sua aspiração humana mais legítima, ou seja, um filho. Poderíamos citar aqui inúmeros testemunhos actuais da Divina Providência que assiste quem se decide a acolher a Palavra de Deus integralmente.
Assim vemos que não é o cristão que cria a divisão, mas a Palavra de Deus que a Carta aos Hebreus diz ser uma espada afiada: “Na verdade, a palavra de Deus é viva, eficaz e mais afiada que uma espada de dois gumes; penetra até à divisão da alma e do corpo, das articulações e das medulas, e discerne os sentimentos e intenções do coração. Não há nenhuma criatura oculta diante dele, mas todas as coisas estão a nu e a descoberto aos olhos daquele a quem devemos prestar contas” (Heb 4,12)
Neste sentido entendemos a segunda leitura de hoje que fala do Baptismo. Este, que já era praticado, por João Baptista e até pelos judeus, consistia em um sinal de arrependimento e rompimento com a vida passada e o início de uma vida nova. Ao elevar este sinal externo ao grau de sacramento, ou seja, sinal eficaz da graça, Nosso Senhor deu-lhe ainda mais força. Por isso afirmou São Paulo:  “Assim vós também: considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rm6,11)É esta ruptura com o pecado que pode criar tensões inevitáveis com quem não a deseja. O cristão, porém, da sua parte, é chamado a ser promotor da paz, da verdadeira paz, fruto da justiça e da caridade.

Para as Células de Evangelização:
Quais as circunstâncias actuais em que devemos amar mais a Cristo do que nossos pais, filhos, e até a nossa própria vida?
Pe. Mracelo

terça-feira, 4 de maio de 2010

Deus Amor Infinito de São Vicente Pallotti

O Amor infinito e a misericórdia infinita de Deus na criação do homem

Introdução: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gen 1, 26)

A fé nos diz que Deus não tem corpo, devemos portanto dizer que a alma é criada à imagem e semelhança de Deus. Por este motivo, a nossa alma é um ser vivente e inteligente com as características particulares de ser uma viva imagem de Deus, essência de Deus (Deus Amor Infinito, cap. VIII).

Quando reflete sobre o significado de ser criado a imagem e semelhança de Deus, Pallotti encontra um elenco de características. Quer dizer que somos:

·         Uma viva imagem de Deus

·         Uma viva imagem do Pai, do Filho e do Espírito Santo

·         Uma viva imagem da potência infinita

·         Uma viva imagem da sabedoria e bondade

·         Uma viva imagem da justiça, misericórdia e pureza

·         Uma viva imagem da santidade e perfeição.

Reflexão

A imagem da pessoa, com uma alma criada à imagem e semelhança de Deus. concorda com a imagem dada no Salmo 8: o ser humano é plenificado de dignidade e de honra aos olhos de Deus.

Ao contemplar esta possiblidade sentimos-nos chamados a um otimismo e a uma esperança que vai além do reconhecimento habitual do nosso pecado e de nossas faltas e a fé nos leva a acreditar na misericórdia de Deus e na sua prontidão em perdoar-nos. Nós, seres humanos, somos criados à imagem e semelhança de Deus e todas estas características constituem o nosso sinal distintivo desde o nascimento. Muitas vezes é necessário uma reflexão mais profunda sobre esta intuição positiva para fazê-la própria como nos encoraja Pallotti nesta meditação. 

São Vicente é consciente de quanto difícil é entender a grandeza desta graça, reconhecer que a maioria das pessoas, e também ele, experimentam “negligência e ingratidão” por não apreciar o grande dom de nossas almas.

Muitas vezes somos tentados a concentrar-nos sobre nossas limitações e sobre aquilo que não sabemos fazer e que Pallotti define com os termos de “negligência” e de “ingratidão”. Todavia ao longo da história da Igreja tivemos autoridades espirituais como São Vicente, que falaram desta tensão.

A tensão entre a escuridão e a luz foi tratada em um discurso em 1994 atribuído a Nelson Mandela mas escrito por Marianne Williamson: “O nosso medo mais profundo não é aquele de nos sentirmos inadequados. O nosso medo mais profundo é aquele de nos sentirmos potentes além de nossos limites. É a nossa luz, não a nossa sombra que mais nos assusta. Nos perguntamos: “Quem sou eu para ser brilhante, cheio de talentos, magnifico?” “Na realidade quem és tu para NÃO ser também? Somos filhos de Deus. O nosso “jogar” pequeno não serve para o mundo. Não existe nada de iluminado em diminuir-nos a nós mesmos de modo que os outros não se sintam inseguros ao nosso redor. Todos nós nascemos para resplandescer como fazem as crianças. Nascemos para manifestar a glória de Deus que está dentro de nós e, não somente em alguns de nós mas, em cada um de nós. E quando permitimos que a nossa luz resplandeça, incoscientemente damos aos outros a possibilidade de fazerem o mesmo. E quando nos libertamos dos nossos medos, a nossa presença, automáticamente liberta os outros”.

A Sagrada Escritura afirma que fazer brilhar a nossa luz é fundamental para nós que somos chamados a sermos cristãos: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha”(Mt 5, 14) “Porque o Senhor assim no-lo mandou: ‘Eu te estabeleci para seres luz das nações, e levares a salvação até os confins da terra” ( At 13, 47).Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite nem das trevas” (1Tess 5, 5).

No seu tratado sobre o ‘Espírito Santo’, São Basílio Magno, explica como a presença do Espírito ajuda a iluminar esta luz que está dentro de nós: “O Espírito é fonte de santificação e luz inteligível. Oferece a toda criatura inteligente a si mesmo e através de si mesmo luz e ajuda para buscar a verdade…do mesmo modo, dos raios de sol, do qual os benefícios são sentidos por cada um como se resplandecesse somente para ele…assim também o Espírito Santo …infunde em todos uma graça suficiente e total…

E como os corpos muito transparentes e nitidos ao contato de um raio se tornam também esses muito luminosos e emanam de si novos raios, assim as almas que possuem em si o Espírito e que são iluminadas pelo Espírito se tornam também essas santas e refletem a graça sobre os outros. Do Espírito …a familiaridade das coisas do céu. D’Ele a alegria eterna, d’Ele a união constante e a semelhança com Deus, e, coisa mais sublime de cada criatura, d’Ele a possibilidade de se tornar semelhantes a Deus”. Pois, como Pallotti reconheceu, esta é a imagem da qual fomos criados. 

O autor franciscano, Richard Rohr, percebe as implicações do aceitar de que somos criados a imagem de Deus: o passo enorme para frente se torna claro quando começamos a honrar e aceitar a imagem divina dentro de nós, e depois não podemos não enxergá-la em cada pessoa, e sabemos que este dom é assim imerecido aos outros quanto o é  para nós. E por isso, deixa-se de fazer mau juizo sobre os outros, e se inicia amar de modo incondicionado sem perguntar-nos se o outro é digno ou não.

Em outras palavras, o reconhecimento de ser criado à imagem divina conduz a uma mais completa manifestação da imagem de Deus na vida dos fiéis. Somos chamados a nos aproximar da imagem de Deus na qual imagem e semelhança fomos criados. Este é um processo contínuo, intercalado com tempos de ingratidão e negligência, mas, também nutrido pela oração e pela prática. O prefácio I do tempo da Quaresma nos lembra: “Cada ano doas aos teus fiéis de…participar aos mistérios da redenção para que alcancem a plenitude da vida nova em Cristo teu Filho”. 

Pallotti interpreta o fato de que somos criados à imagem e semelhança de Deus como uma chama para a santidade e à perfeição. Porém, é somente através dos nossos esforços limitados e imperfeitos em viver o amor, a justiça e a misericórdia que nos transformamos na imagem de Deus na qual somos criados. E, portanto, podemos rezar com São Vicente:

“Deus meu, Pai meu, amorosíssimo e misericordiosíssimo meu Criador, é impossível que eu chegue compreender a preciosidade da minha alma criada à imagem e semelhança vossa, porque não chego a conhecer-Vos. Mas muito mais impossível que eu chegue a compreender aquele Amor infinito e aquela infinita misericórdia com a qual Vós vos dignastes em criar-me assim, mesmo que, tenhais com a vossa infinita e eterna sabedoria conhecido a pouca importância que eu teria feito de Vós, incompreensível beneficio e quanto vos fui ingrato e portanto é também impossível que eu chegue a compreender a minha indignidade.

Mas, Vós pela mesma vossa infinita misericórdia, pelos merecimentos infinitos de Jesus Cristo, pelos merecimentos e intercessão de Maria SS. e de todos os Anjos e Santos tenho firme confiança, e tenho por certo, que me concedereis o dom de uma perfeita contrição, e de lembrar sempre este vosso Amor infinito, e esta vossa infinita Misericórdia, e de apreciar sempre e estimar a minha alma e de meu próximo e de ser agradecido a Vós pelos infalíveis benefícios como Vós quereis”. (Deus Amor Infinito, cap. VIII)